A necrose asséptica da cabeça do fêmur (doença de Legg-Calvé-Perthes) é uma doença do quadril que atinge principalmente cães jovens de raças pequenas: a circulação de sangue na cabeça e no colo do fêmur é interrompida, o osso dessa região morre e se deforma, o cão passa a mancar da pata traseira e, com o tempo, a articulação evolui para desgaste.
Se o seu filhote de porte pequeno começou a mancar de uma pata traseira, este guia explica o que se sabe sobre a doença, como ela é diagnosticada e tratada e por que a reabilitação faz parte da recuperação. Uma informação importante vem logo de início: segundo o Tratado, a cirurgia resolve o desconforto e o mancar em aproximadamente 84 a 100% dos casos.
O que é a necrose asséptica da cabeça do fêmur?
O quadril é a articulação entre a cabeça do fêmur (a parte arredondada, em forma de bola, no topo do osso da coxa) e o acetábulo (a cavidade da bacia onde essa bola se encaixa). A cabeça do fêmur depende de pequenos vasos sanguíneos para se manter viva.
Na necrose asséptica, também chamada de necrose avascular da cabeça femoral, esse fornecimento de sangue falha. O que acontece a seguir, em etapas:
- O osso morre: sem sangue, a estrutura interna da cabeça do fêmur sofre necrose.
- A cabeça cede: o peso do corpo, a cada passo, faz a região afundar, e surgem fissuras na superfície da articulação.
- O sangue volta, mas o osso novo é mais frágil: ele se forma com menos flexibilidade e menos rigidez do que o osso original.
- A cabeça se deforma: dependendo do tamanho da lesão, ela fica parcial ou totalmente deformada, e o colo do fêmur pode engrossar.
O resultado é dor, mancar e, com o tempo, doença articular degenerativa (um desgaste progressivo da articulação).
O que causa a necrose asséptica da cabeça do fêmur?
A explicação mais aceita é uma obstrução dos vasos muito pequenos que irrigam a cabeça do fêmur. Essa obstrução se repete várias vezes e atrapalha tanto a chegada de sangue quanto a sua saída.
Mas a causa não se resume à circulação. Outros fatores também foram propostos pelos estudiosos:
- influências hormonais ou metabólicas;
- aumento da pressão dentro da cápsula da articulação;
- conformação do corpo do cão;
- fatores genéticos;
- infecção.
Quais raças e em que idade a doença aparece?
| Característica | O que o Tratado descreve |
| Porte | Cães de raças pequenas, principalmente das raças toy e terrier |
| Raças citadas | Yorkshire Terrier, West Highland White Terrier, Poodle Toy, Pug e Lhasa Apso |
| Idade | A maior parte dos cães tem entre 4 e 11 meses |
| Sexo | Machos e fêmeas são afetados sem diferença |
| Um ou os dois lados | Os dois quadris são afetados em aproximadamente 12 a 16,5% dos casos |
Por isso, o capítulo reforça: em cão jovem e pequeno que manca de uma pata traseira, essa doença precisa estar entre as primeiras suspeitas.
Quais sinais o tutor consegue perceber?
Nos casos leves, a doença pode passar sem sinais evidentes. Quando aparecem, os mais comuns são:
- mancar de uma pata traseira que começa devagar, quase sem perceber, e vai piorando ao longo de 6 a 8 semanas;
- na maioria das vezes, só um lado é afetado;
- perda de músculo na coxa, que costuma ser a queixa mais identificada nesses cães;
- nos casos mais graves, mancar de repente, mancar que vai e volta ou deixar de usar a pata;
- irritabilidade;
- comer menos do que o normal;
- lamber demais a pele da região afetada.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é feito pelo médico-veterinário, juntando o perfil do cão, o exame físico e os exames de imagem:
- Perfil e história: cão jovem, de porte pequeno, com mancar que começou devagar e sinais de desgaste no quadril.
- Exame físico: o cão costuma sentir desconforto quando o quadril é tocado e movimentado; podem aparecer estalos (crepitação), menos movimento na articulação e perda de músculo. Desgaste articular é pouco comum em cães jovens, e quando ele é percebido nessa idade pode indicar justamente essa doença.
- Radiografia: na maioria das vezes, confirma a suspeita. Ela mostra a evolução das alterações na cabeça do fêmur, que vão de áreas de perda de osso até o achatamento e, nas fases avançadas, a fragmentação.
- Tomografia computadorizada: pode ser mais sensível do que a radiografia nas fases iniciais.
- Exame histopatológico (análise do osso em laboratório): pode confirmar o diagnóstico ao mostrar a morte do osso.
Outras doenças podem causar sinais parecidos e precisam ser descartadas, principalmente luxação de patela, doença do ligamento cruzado cranial, artrite séptica (infecção na articulação), tumores, traumas com fraturas ou luxações e a displasia coxofemoral, que, de forma menos comum, também pode atingir cães pequenos.
Tem tratamento sem cirurgia?
Existe tratamento conservador, mas o capítulo é direto sobre o resultado dele: resolve o mancar em menos de 25% dos casos. Por isso, o tratamento indicado é preferencialmente cirúrgico.
| Tratamento conservador | Tratamento cirúrgico | |
| O que envolve | Medicação para dor e inflamação prescrita pelo veterinário, repouso, nutrição adequada e fisioterapia | Excisão artroplástica da cabeça e do colo femoral ou artroplastia total do quadril |
| Resultado descrito | Resolve o mancar em menos de 25% dos casos | Resolve o desconforto e o mancar em aproximadamente 84 a 100% dos casos |
| Papel da reabilitação | Manter a musculatura ao redor da articulação, por até quatro semanas | Recomendada depois de qualquer técnica, para formar uma falsa articulação funcional e recuperar músculo e movimento |
Se o cão não responde bem ao tratamento clínico, esse é um forte sinal de que a cirurgia é necessária.
Quais cirurgias são usadas?
- Excisão artroplástica da cabeça e do colo femoral (colocefalectomia): remove a parte doente do fêmur para acabar com o contato entre os ossos, formando uma falsa articulação sustentada pelos músculos.
- Artroplastia total do quadril (prótese): substitui o quadril por implantes.
A escolha da técnica é feita pela equipe cirúrgica que acompanha o cão.
Como a reabilitação ajuda na recuperação?
O ponto de partida é sempre um diagnóstico exato. A partir dele, a equipe que trata o cão escolhe entre o tratamento conservador e o cirúrgico, e o veterinário fisiatra monta a reabilitação de acordo com o objetivo de cada caminho.
Na maior parte das doenças do quadril, o cão perde músculo e muda o jeito de se movimentar. Para fugir da dor, ele joga o peso para as patas da frente e arqueia a coluna, o que com o tempo sobrecarrega outras regiões do corpo. A reabilitação trata também essas compensações.
Depois da colocefalectomia, a reabilitação ganha um papel ainda maior:
- Os músculos passam a sustentar o quadril. Sem a cabeça do fêmur, o peso deixa de ser apoiado no osso e passa a ser suportado pelos músculos profundos do quadril e pela cápsula da articulação.
- Os glúteos viram peça central da estabilidade. Com musculatura insuficiente ou sem reabilitação adequada, o “rebolado” ao andar fica mais evidente.
- A coxa precisa de força. Fraqueza ou perda de músculo no quadríceps (músculo da frente da coxa) pode causar mancar persistente e até parecer falha da cirurgia, mesmo sem dor na articulação.
Quais técnicas são usadas e para que servem?
O capítulo sobre reabilitação não traz um protocolo exclusivo para a necrose asséptica. O que ele descreve é a reabilitação após a colocefalectomia, que é a cirurgia mais usada nessa doença:
| Técnica | Função descrita no capítulo |
| Crioterapia (terapia com frio), fotobiomodulação (laserterapia) e TENS (eletroestimulação) | Logo após a cirurgia: controle da dor, efeito anti-inflamatório e cicatrização dos tecidos |
| Mobilização passiva leve, massagem, exercícios de balanço leve e caminhadas em guia curta | Logo após a cirurgia: movimentar a articulação com suavidade e encorajar o apoio da pata |
| Calor, ultrassom terapêutico e alongamento | Iniciados quando a inflamação cede |
| Magnetoterapia (campos eletromagnéticos), fotobiomodulação e ultrassom terapêutico | Estimular a cicatrização dos tecidos e o ganho de massa muscular |
| Senta-e-levanta e deita-e-levanta | A partir de cerca da terceira semana, quando o cão apoia parte do peso sem dor: movimentar ativamente o quadril sem exigir que ele se estique por completo |
| Esteira aquática (hidroesteira) | Assim que o cão está sem dor, começa com a água na altura do quadril; o nível baixa aos poucos até os exercícios no chão, onde se estimula a extensão completa da pata |
| Elásticos de resistência, pesos, rampas mais inclinadas e degraus | Fase final: aumentar o desafio dos exercícios |
Quando a técnica escolhida é a prótese de quadril, a lógica muda: nos primeiros meses, o repouso é restrito, sem escadas, corridas ou pulos, com passeios só na guia e exercícios introduzidos de forma gradual.
Durante todo o processo, o veterinário fisiatra acompanha a evolução junto com o ortopedista. Se surgirem dor ou estalos ao movimentar a articulação, o cão é encaminhado de volta ao ortopedista para avaliação.
Quando levar o cão ao veterinário?
Procure avaliação se o seu cão, principalmente se for jovem e de raça pequena:
- mancar de uma pata traseira, mesmo que de leve;
- perder músculo na coxa;
- deixar de apoiar a pata;
- ficar irritado, comer menos ou lamber muito a região do quadril.
Não espere a pata parar de funcionar. O Tratado aponta que o resultado da cirurgia pode ser pior quando o cão já não apoiava a pata antes do procedimento ou quando a perda de músculo é acentuada.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico-veterinário.
Qual é o prognóstico?
Para os cães operados com a excisão da cabeça e do colo femoral, o prognóstico de voltar a usar a pata é favorável. Os números ajudam a entender:
- a cirurgia resolve o desconforto e o mancar em aproximadamente 84 a 100% dos casos;
- o cão fica apto a se movimentar e a fazer as atividades normais da rotina.
Com honestidade, também é preciso saber que:
- depois da colocefalectomia, o cão não terá marcha e postura totalmente normais, porque a biomecânica do quadril muda, e ele não recupera a extensão completa do quadril;
- um mancar discreto, que vai e volta, pode aparecer depois de períodos de descanso ou de exercício intenso;
- o tratamento só com medicação e repouso resolve o mancar em menos de 25% dos casos;
- em aproximadamente 12 a 16,5% dos cães, os dois quadris são afetados, por isso o outro lado também merece atenção.
Quais outras doenças afetam o quadril?
A displasia coxofemoral é a principal delas: uma alteração no desenvolvimento do quadril que o deixa frouxo e instável. É mais comum em raças grandes, mas também é relatada em cães pequenos e médios.
De onde vêm estas informações?
Este artigo se baseia no capítulo “Afecções da Articulação Coxofemoral”, de Bruno Watanabe Minto, Fernando Yoiti Kitamura Kawamoto, Guilherme Galhardo Franco e Alefe Luiz Caliani Carrera, e no capítulo “Reabilitação da Coxofemoral”, de Gustavo Vicente e Jennifer Hummel. Os dois integram o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia e também Fundador da Mundo à Parte, rede de fisioterapia veterinária com mais de 100 unidades em 9 países.
Seu cão está mancando ou vai passar pela cirurgia?
Seja na investigação do mancar, seja na recuperação depois da colocefalectomia, uma avaliação com um veterinário fisiatra define o plano de reabilitação certo para o momento do seu cão, junto com o veterinário que já o acompanha. Encontre a unidade Mundo à Parte mais próxima e agende a avaliação do seu cão.
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Perguntas frequentes
Necrose asséptica da cabeça do fêmur tem cura?
O tratamento busca eliminar a dor e devolver o uso da pata. Segundo o Tratado, a cirurgia resolve o desconforto e o mancar em aproximadamente 84 a 100% dos casos. Depois da colocefalectomia, o cão faz as atividades da rotina, mas não volta a ter marcha e postura totalmente normais. A reabilitação é recomendada depois de qualquer técnica cirúrgica.
Necrose asséptica da cabeça do fêmur é a mesma coisa que Legg-Calvé-Perthes?
Sim. São nomes diferentes para a mesma doença, que também é chamada de necrose avascular da cabeça femoral.
Com que idade a doença aparece?
A maior parte dos cães afetados tem entre 4 e 11 meses. Machos e fêmeas são afetados sem diferença, e as raças pequenas, principalmente toy e terrier, são as mais atingidas.
A doença pode atingir os dois lados do quadril?
Pode. Os dois quadris são afetados em aproximadamente 12 a 16,5% dos casos. Na maioria das vezes, porém, o mancar começa em um lado só.
Fisioterapia substitui a cirurgia?
Na maioria dos casos, não. O tratamento conservador, que inclui fisioterapia, resolve o mancar em menos de 25% dos cães. Quando é tentado, a reabilitação serve para manter a musculatura por até quatro semanas; se o resultado não for bom, a cirurgia passa a ser indicada. Depois da cirurgia, a reabilitação volta a ser essencial.
Quando o cão começa os exercícios depois da cirurgia?
Por volta da terceira semana, quando consegue apoiar parte do peso na pata sem dor. Antes disso, o foco é controlar a dor e a inflamação, cicatrizar os tecidos e estimular o apoio com movimentos leves.
Guias por raça
Veja o guia completo das raças com predisposição à necrose asséptica da cabeça do fêmur, com sinais de alerta, cuidados e reabilitação:
Ou veja a lista de unidades por estado e cidade.