O Dachshund, conhecido no Brasil como salsicha ou Teckel, é uma raça alemã de corpo alongado e patas curtas e é a raça mais vista na reabilitação por hérnia de disco (doença do disco intervertebral): segundo o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, ela tem 12,6 vezes maior incidência de herniações que as demais raças.
Este guia tem três partes. Primeiro, quem é o Dachshund. Depois, o que a ciência sabe sobre a coluna da raça e quais sinais merecem atenção. Por fim, como o veterinário fisiatra atua na recuperação.
De onde vem o Dachshund e por que ele é chamado de salsicha?
O Dachshund surgiu na Alemanha como cão de caça. O nome junta as palavras alemãs Dachs (texugo) e Hund (cão): ele foi selecionado para entrar em tocas e enfrentar texugos e outros animais que vivem debaixo da terra. Teckel é outro nome alemão da raça e continua em uso.
O apelido “salsicha” vem do formato: corpo comprido, peito profundo e pernas curtas. A raça existe em diferentes tamanhos, como o padrão e o miniatura, e em variedades de pelagem: pelo curto, pelo longo e pelo duro.
Como é o temperamento do Dachshund?
- Corajoso e determinado: herança do trabalho de caça. Ele não costuma recuar.
- Curioso e farejador: segue um cheiro com foco total.
- Independente e, às vezes, teimoso: aprende rápido, mas gosta de decidir se vai obedecer.
- Alerta: late para avisar que alguém chegou.
- Apegado à família: costuma eleger uma pessoa preferida e quer estar sempre por perto.
Quais cuidados básicos o salsicha pede no dia a dia?
- Educação com reforço positivo: com um cão independente, petisco, elogio e paciência funcionam melhor que bronca.
- Socialização desde filhote: conviver com pessoas, sons e outros cães ajuda a controlar a desconfiança com estranhos e o excesso de latidos.
- Atividades de faro: brinquedos recheáveis e jogos de procurar petisco gastam a energia mental de um cão que nasceu para farejar.
- Pelagem conforme o tipo: o pelo curto pede uma escovação simples. O longo e o duro precisam de escovação mais frequente para não embaraçar.
- Companhia: é uma raça que gosta de estar com a família e tende a não gostar de passar muito tempo sozinha.
Os cuidados com a coluna ficam na próxima seção, que se baseia exclusivamente no Tratado.
Quais são as doenças mais comuns no Dachshund, e como a reabilitação ajuda?
Nos capítulos do Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais que servem de base a este artigo, a condição ligada ao Dachshund é a hérnia de disco, chamada tecnicamente de doença do disco intervertebral (DDIV). O capítulo, escrito por Jennifer Hummel, aponta o Dachshund como a raça mais vista na reabilitação por esse problema.
Por que o Dachshund tem tanta hérnia de disco?
O Dachshund pertence ao grupo das raças condrodistróficas. Nelas, uma alteração genética faz os ossos crescerem de forma desigual, o que encurta e deforma os membros e estreita o canal da coluna por onde passa a medula espinhal. Essa mesma alteração está ligada à calcificação dos discos intervertebrais, as “almofadas” que ficam entre as vértebras e amortecem os movimentos de caminhar, saltar e correr.
Nessas raças, o disco perde água e elasticidade muito cedo, e isso o deixa mais sujeito a se romper. O processo pode começar a partir dos 2 meses de idade, e a calcificação dos discos já pode aparecer em radiografias aos 5 meses.
| O que o Tratado registra sobre o Dachshund | Dado |
| Incidência de herniações em comparação com as demais raças | 12,6 vezes maior |
| Dachshunds que desenvolvem sinais clínicos ao longo da vida | 19 a 24% |
| Em algumas linhagens da raça | até 62% |
| Participação da extrusão (o disco se rompe e o conteúdo vaza para o canal da coluna) nos casos da raça | 45 a 73% |
| Idade de pico dos sinais nas raças condrodistróficas | entre 3 e 7 anos; raro antes dos 2 anos |
| Relação da extrusão com condição corporal, peso ou nível de atividade | sem correlação |
O formato do corpo, por outro lado, conta. Segundo um estudo citado no capítulo, o comprimento da coluna e o encurtamento dos membros tiveram correlação clínica com a doença:
- cada 1 cm a menos na distância entre a primeira vértebra torácica e a primeira sacral aumentou 2,1 vezes o risco;
- cada 1 cm a menos na distância entre a ponta do calcanhar (tuberosidade calcânea) e o tendão patelar, uma medida da perna traseira, aumentou 11,1 vezes o risco.
A hérnia pode aparecer em dois pontos principais. Nas costas, as raças condrodistróficas são mais atingidas na transição entre a parte torácica e a lombar. No pescoço, o Dachshund e o Beagle são as raças condrodistróficas mais acometidas.
Quais sinais o tutor percebe?
Quando a hérnia é no pescoço:
- dor intensa, com gritos ou gemidos e resistência para se mexer ou ser pego no colo;
- pescoço rígido;
- tremores musculares;
- manqueira de uma pata da frente, com perda rápida de músculo nesse membro;
- lambedura excessiva dos dedos, que nos casos mais intensos pode chegar à automutilação.
Quando a hérnia é nas costas:
- costas arqueadas por causa da dor (postura cifótica);
- andar cambaleante, sem coordenação (ataxia);
- fraqueza nas patas traseiras (paraparesia);
- dificuldade para urinar (retenção urinária) e alterações no controle das fezes;
- nos casos mais graves, perda da sensibilidade à dor profunda nas patas traseiras.
Como saber se o caso é leve ou grave?
A gravidade depende da quantidade de material do disco que entra no canal da coluna e da velocidade com que ele atinge a medula. Para o tutor, a referência mais clara é o que o cão consegue fazer:
| O que o tutor observa | O que o Tratado indica |
| Anda normalmente, mas sente dor na coluna | Tratamentos conservadores, como fisioterapia, acupuntura, medicação e repouso, têm resultados favoráveis quando a capacidade de andar não foi tão afetada. Dor intensa e persistente pode levar à indicação de cirurgia. |
| Anda, mas cambaleia ou tem fraqueza nas patas traseiras | Ainda anda sozinho. O tratamento conservador pode ser indicado, com reavaliações frequentes. |
| Mexe as patas traseiras, mas não consegue dar passos sem ajuda | A partir deste ponto, ou em quadros piores, a cirurgia é mais comumente realizada. |
| Não mexe as patas traseiras, mas ainda sente dor profunda | Prognóstico de recuperação favorável a excelente. |
| Não mexe as patas traseiras e perdeu a dor profunda | Prognóstico reservado. A cirurgia deve ocorrer o mais rápido possível. |
Dor profunda é a percepção consciente de um estímulo forte nos dedos, e só o veterinário consegue avaliá-la. A pata se encolher quando é tocada não basta: é preciso uma reação consciente do cão, como vocalizar, tentar morder ou virar a cabeça.
Não espere para ver se passa. Na região das costas, os sinais podem piorar rapidamente depois que o disco se rompe, e a movimentação do cão tem grande peso nessa evolução. Um salsicha que começa só com dor pode piorar se continuar pulando e correndo. O Tratado cita um exemplo típico: o cão que se sente melhor depois das primeiras medicações e pula do sofá.
E se o Dachshund tratou a hérnia e não voltou a andar?
Para os cães que passaram pela cirurgia e não recuperaram a dor profunda em cerca de 30 dias, existe uma reabilitação de última chance: o andar medular, também chamado de caminhar espinhal. É indicado para casos selecionados com critério.
- Como funciona: estimulada por movimentos repetitivos, a medula abaixo da lesão passa a produzir passos de forma reflexa e involuntária.
- Para quem: a lesão precisa estar na região toracolombar (costas). Cães com lesão na cauda equina, perto da base da cauda, não desenvolvem andar medular.
- Como é a marcha: as patas traseiras não acompanham as dianteiras, o cão tem dificuldade nas curvas e não consegue andar para trás.
- O que os estudos mostram: dos 18 cães com hérnia de disco que não recuperaram a sensibilidade à dor, sete (38%) voltaram a caminhar em até um ano e meio. Em outro estudo, com 81 cães paraplégicos sem dor profunda, 48 (59%) desenvolveram o andar medular, e 34 deles tinham hérnia de disco.
- Tempo: o tempo médio relatado em cães com hérnia toracolombar e fraturas vertebrais fica em torno de 86 a 115 dias.
- Compromisso: o cão continua precisando de cuidados diários e permanentes, como esvaziar a bexiga e o intestino, manter a pele limpa e mudar de posição.
O capítulo de Bruno Martins Araújo e Eduardo Alberto Tudury conclui que a perda da dor profunda, sozinha, não deve desencorajar o tratamento: mesmo quando o cão não recupera o andar voluntário, o andar medular pode se desenvolver.
O Dachshund também tem problema de ligamento cruzado?
No capítulo sobre o ligamento cruzado, escrito por Eloy Curuci e Wendell Barboza, o Dachshund aparece entre as raças com menor frequência de ruptura do ligamento cruzado cranial, ao lado de Schnauzer, Shih Tzu e Pequinês. O risco maior está nas raças médias, grandes e gigantes.
Como a reabilitação com o veterinário fisiatra ajuda o Dachshund?
A reabilitação não disputa espaço com a cirurgia. Nos casos com indicação de tratamento conservador, ela é o centro do tratamento. Nos casos operados, é a continuação dele.
O que acontece na primeira avaliação?
- Exame clínico e neurológico para entender em que ponto da coluna está o problema e qual é a gravidade.
- Radiografia simples usada como triagem, para descartar outras causas que mudariam o plano, como tumores na vértebra, infecção do disco (discoespondilite), fraturas e luxações. Ela não substitui a tomografia ou a ressonância quando esses exames são indicados.
- Na experiência da autora, sempre que possível essa avaliação inicial é feita sem sedação, para não relaxar a musculatura que está protegendo a coluna.
- Orientação detalhada de repouso: nada de saltos, corridas, brincadeiras e passeios até o quadro se estabilizar.
Como é o tratamento sem cirurgia?
- Na fase aguda, a reabilitação pode ser suficiente para controlar a dor, diminuir a contração muscular e favorecer a recuperação.
- Em casos bem selecionados e bem conduzidos, é comum ver melhora significativa já nas primeiras duas semanas.
- Na primeira semana, o ideal é reavaliar em dias alternados, para confirmar que as orientações de casa estão sendo seguidas e perceber cedo qualquer piora.
- Quando a hérnia é no pescoço, a recuperação pode ser mais longa. Com sessões a cada 48 horas, a maioria dos cães mostra melhora discreta a moderada ao final da segunda semana. Mesmo com o cão aparentemente melhor, pulos em móveis, escadas e brincadeiras intensas ficam restritos por cerca de 20 a 30 dias a partir do início da crise. Natação e esteira aquática ficam de fora enquanto houver dor.
- Se o cão não responde, o primeiro passo é conferir se o manejo em casa está correto. Se ainda assim não houver evolução, o caso é reavaliado e a cirurgia passa a ser considerada.
E depois da cirurgia?
- O ideal é voltar à fisioterapia cedo, de preferência nas primeiras 24 horas, desde que o cirurgião autorize e o cão tenha condições clínicas.
- Os objetivos são controlar a inflamação, favorecer a recuperação dos tecidos com recursos como a fotobiomodulação (laserterapia) e a magnetoterapia, preservar a mobilidade das articulações e recuperar sustentação, propriocepção (a noção de onde está cada pata), equilíbrio, força e resistência.
- A recuperação costuma seguir uma ordem: primeiro volta a dor profunda, depois os movimentos voluntários, o movimento da cauda, o controle das fezes, os passos, a marcha ainda com algum desequilíbrio e, por último, a propriocepção.
- É comum a marcha voltar entre 30 e 60 dias, mas alguns cães evoluem mais devagar.
- Com honestidade: em lesões mais severas, podem ficar sequelas permanentes. Em até 80% dos casos a hérnia é mais de um lado, e esse lado pode ficar com alguma sequela, como um déficit de propriocepção permanente.
Quais recursos entram no protocolo?
- Cinesioterapia (exercícios terapêuticos): é o centro da recuperação funcional, nas sessões e em casa, sob orientação do veterinário fisiatra.
- Esteira aquática (hidroesteira): a resistência da água ajuda a ganhar massa muscular, as correntezas trabalham a coordenação e a flutuação facilita a repetição do movimento de marcha.
- Eletroestimulação neuromuscular: ajuda a desenvolver a musculatura das patas traseiras e das costas.
- Fotobiomodulação (laserterapia) e magnetoterapia: ajudam a controlar a inflamação e favorecem a reparação dos tecidos.
- Infrassom, ultrassom, alongamento e massagem: tratam as contraturas musculares que surgem com a sobrecarga.
O que o tutor faz em casa?
- Respeita a restrição de atividades pelo tempo orientado, mesmo que o cão pareça bem.
- Faz os exercícios passados pelo veterinário fisiatra, que antes confere se o tutor sabe executá-los, para evitar sobrecarga ou lesão nas articulações.
- Se o cão fica deitado: muda a posição dele regularmente (de preferência a cada quatro horas), usa um colchão que distribui a pressão e mantém o pelo e a região íntima limpos e secos.
- Esvazia a bexiga com frequência e por completo, com a técnica de mãos ensinada pelo profissional. A sondagem não é feita pelo tutor.
- Fica atento à urina com cheiro forte, turva ou de cor diferente, que pode indicar infecção.
De onde vêm as informações deste artigo?
Os dados de saúde deste texto vêm do Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia, também Fundador. Foram usados os capítulos “Doença do Disco Intervertebral”, “Reabilitação da Doença do Disco Intervertebral” e “Reabilitação no Andar Medular”, de Jennifer Hummel, “Caminhar Espinhal em Cães e Gatos com Lesões Medulares Toracolombares”, de Bruno Martins Araújo e Eduardo Alberto Tudury, e “Insuficiência do Ligamento Cruzado Cranial e Lesão de Menisco”, de Eloy Curuci e Wendell Barboza.
Onde fazer a avaliação do seu Dachshund?
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Quais são as dúvidas mais comuns dos tutores de Dachshund?
Todo Dachshund vai ter hérnia de disco?
Não. A raça tem predisposição genética, mas, segundo o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, de 19 a 24% dos Dachshunds desenvolvem sinais clínicos ao longo da vida. Em algumas linhagens, esse percentual pode chegar a 62%.
Com que idade a hérnia de disco costuma aparecer no salsicha?
Nas raças condrodistróficas, grupo do Dachshund, o pico dos sinais fica entre 3 e 7 anos de idade, e o problema é raro antes dos 2 anos. As alterações no disco começam bem antes, a partir dos 2 meses de idade, sem que o tutor perceba.
Manter o Dachshund magro e sem pular evita a hérnia?
O Tratado registra que, no Dachshund, a extrusão (o tipo de hérnia mais comum na raça) não tem correlação com a condição corporal, o peso ou o nível de atividade. O que teve correlação foi o formato do corpo: o comprimento da coluna e o encurtamento dos membros. Depois que os sinais aparecem, a movimentação pesa muito, e o repouso rigoroso orientado pelo veterinário ajuda a evitar que o quadro piore.
Meu Dachshund ficou paralisado. Ainda tem chance?
Depende sobretudo da dor profunda. Cães que continuam sentindo dor profunda nas patas traseiras têm prognóstico de recuperação favorável a excelente. Quando a dor profunda se perde, o prognóstico é reservado e a cirurgia deve acontecer o mais rápido possível. Mesmo assim, o Tratado afirma que a perda da dor profunda, sozinha, não deve desencorajar o tratamento: muitos cães chegam à sessão sem dor profunda e saem dela com essa resposta de volta. Para quem não recupera, existe o andar medular.
A fisioterapia substitui a cirurgia de hérnia de disco?
Não, e as duas não competem. Quando o cão ainda anda, o tratamento conservador com fisioterapia, repouso e medicação costuma ter resultado favorável. Nos casos graves, a cirurgia descomprime a medula, e a reabilitação continua sendo fundamental depois dela, de preferência começando nas primeiras 24 horas, se o cirurgião autorizar.
Quanto tempo o Dachshund leva para voltar a andar?
Depois da cirurgia, é comum a marcha voltar entre 30 e 60 dias, mas alguns cães evoluem mais devagar. No andar medular, o tempo médio relatado fica em torno de 86 a 115 dias.
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