Displasia coxofemoral em cães: sinais e tratamento

A displasia coxofemoral, também chamada de displasia de quadril, é uma doença de caráter hereditário em que a articulação do quadril do cão se desenvolve de forma anormal, fica frouxa e instável e, com o tempo, evolui para a doença articular degenerativa (DAD), um desgaste progressivo da articulação.

Se o seu cão recebeu esse diagnóstico, ou se você reparou que ele anda diferente, saiba que não está sozinho: essa é uma das doenças ortopédicas mais diagnosticadas em cães. E existe muito a fazer por ele. Este guia explica, em linguagem direta, o que se sabe sobre a displasia, como ela é tratada e como a reabilitação ajuda a devolver conforto e função ao dia a dia.

O que é a displasia coxofemoral, na prática?

O quadril é a articulação entre a cabeça do fêmur (a parte arredondada, em forma de bola, no topo do osso da coxa) e o acetábulo (a cavidade da bacia onde essa bola se encaixa). Esse encaixe ósseo, somado à cápsula, aos ligamentos e aos músculos ao redor, é o que mantém o quadril estável.

Na displasia, esse encaixe fica frouxo. A cabeça do fêmur sai parcialmente do lugar (o que os veterinários chamam de subluxação), as forças sobre a articulação ficam anormais a cada passo e, com o tempo, surge o desgaste.

  • O cão predisposto nasce com o quadril normal e se torna displásico com o passar do tempo.
  • Segundo o Tratado, as alterações que levam ao desenvolvimento anormal da articulação ocorrem entre 30 e 60 dias de vida.
  • O desgaste que vem depois pode causar dor, perda de movimento e perda de massa muscular.

O que causa a displasia de quadril em cães?

A causa exata ainda é desconhecida. Hoje a displasia é entendida como uma doença multifatorial: em cães predispostos, vários genes se expressam junto com características do próprio animal e influências do ambiente.

O capítulo destaca quatro fatores externos que influenciam o surgimento e a gravidade da displasia:

  • alimentação em excesso;
  • ganho de peso rápido;
  • momento da castração;
  • suplementação de cálcio.

Por isso, em filhotes de raças predispostas, vale conversar com o veterinário desde cedo sobre alimentação, ritmo de crescimento, suplementos e o momento certo da castração.

Quais raças têm mais displasia coxofemoral?

A displasia aparece principalmente em cães de raças grandes a gigantes, de crescimento rápido. As mais citadas no capítulo são:

  • Pastor Alemão;
  • Rottweiler;
  • Labrador Retriever;
  • Mastiff;
  • São Bernardo;
  • Golden Retriever.

Mas cães pequenos e médios não estão livres: hoje há muitos relatos em Pugs, Bulldogs e alguns Terriers.

Quanto ao sexo, não há predisposição entre machos e fêmeas.

Quais sinais de displasia o tutor consegue perceber?

A idade em que os sinais aparecem varia: depende da gravidade da displasia e de quanto o tutor está atento ao comportamento do cão. Em geral, fique de olho em:

  • mancar de uma ou das duas patas traseiras;
  • resistência a fazer exercício;
  • dificuldade para se levantar depois de descansar;
  • dificuldade para subir escadas e rampas;
  • andar “saltitando” com as patas traseiras;
  • passos curtos e rígidos, com o peso jogado para as patas da frente e a coluna arqueada;
  • quadril ou coluna “rebolando” ao andar;
  • perda de músculo na região do quadril, principalmente nos glúteos, enquanto as patas da frente ficam mais musculosas;
  • postura com as patas traseiras bem abertas no início da doença e, com o tempo, mais fechadas;
  • dor quando alguém mexe no quadril.

O capítulo descreve dois momentos típicos:

  • Cães jovens (4 a 12 meses): os sinais costumam aparecer de forma aguda e estão ligados principalmente à frouxidão da articulação.
  • Cães com mais de 12 meses: os sinais são parecidos, mas geralmente estão ligados ao desgaste (DAD).

Atenção: alguns cães têm sinais ausentes ou muito discretos, e a displasia só é descoberta num raio-X.

Como é feito o diagnóstico da displasia coxofemoral?

O diagnóstico é feito pelo médico-veterinário, combinando exame clínico e imagem:

  • Observação da postura e da marcha: o veterinário avalia como o cão fica em pé, como distribui o peso e como se movimenta. O andar pode parecer descoordenado, mas o exame neurológico é normal.
  • Exame ortopédico: dobrar e esticar o quadril costuma causar dor, principalmente na forma juvenil. Estalos (crepitação) e perda de movimento aparecem conforme a doença avança.
  • Manobras específicas (Ortolani, Barlow e Bardens): ajudam a estimar a frouxidão da articulação, especialmente em cães jovens. Um resultado negativo não garante que o cão não vá desenvolver a doença com a idade.
  • Radiografia: ajuda a detectar a displasia e o desgaste que ela provoca.
  • Método PennHIP: uma radiografia especial que mede o quanto a cabeça do fêmur se desloca (índice de distração) e indica a probabilidade de o desgaste aparecer.

Outras doenças podem causar sinais parecidos, como a doença do ligamento cruzado cranial, a síndrome da cauda equina e a necrose asséptica da cabeça do fêmur. Por isso a avaliação profissional é indispensável.

Displasia coxofemoral tem tratamento sem cirurgia?

Sim. O objetivo do tratamento é estabilizar a articulação de forma indireta, aliviar a dor, frear a progressão do desgaste e devolver função e qualidade de vida.

O manejo multimodal, definido pelo veterinário, pode reunir:

  • medicação para dor e inflamação, prescrita pelo veterinário;
  • nutracêuticos (suplementos) que protegem a cartilagem;
  • terapia com células-tronco;
  • controle de peso;
  • restrição de exercícios, conforme orientação;
  • fisioterapia.

A escolha entre tratamento conservador e cirúrgico leva em conta a idade e o porte do cão, o grau de desconforto, o que aparece no raio-X, a gravidade dos sinais, o comportamento do animal, outras doenças presentes, os riscos e os cuidados exigidos depois da cirurgia.

Quais cirurgias existem para displasia?

A técnica depende principalmente da idade. Em cães jovens, a cirurgia tem papel preventivo: evitar os sinais e limitar o desgaste futuro. Em cães adultos, as técnicas são de “salvamento”, voltadas a controlar o desgaste e a dor.

Cirurgia e reabilitação caminham juntas: a fisioterapia pode fazer parte do tratamento antes e depois da cirurgia.

Como a reabilitação ajuda um cão com displasia?

O primeiro passo é um diagnóstico exato e a definição do estágio do desgaste. A partir daí, a equipe que acompanha o cão escolhe entre tratamento conservador ou cirúrgico, e o veterinário fisiatra monta a reabilitação de acordo com essa escolha.

No tratamento conservador, a reabilitação tem quatro objetivos:

  • Reduzir a dor e a inflamação da articulação.
  • Melhorar a composição do líquido da articulação, diminuindo a pressão na cápsula, o que também alivia a dor.
  • Ganhar massa muscular para estabilizar o quadril, principalmente nos glúteos e nos isquiotibiais (músculos da parte de trás da coxa).
  • Tratar contraturas e pontos-gatilho em músculos que, doloridos, prejudicam a marcha e favorecem dor crônica.

A lógica é em etapas: com a dor sob controle, o cão volta a apoiar a pata afetada, o que ajuda a ganhar músculo. Depois vêm exercícios de força e resistência, com intensidade e desafio aumentando aos poucos.

A reabilitação também olha para o corpo inteiro. Para fugir da dor no quadril, o cão transfere peso para as patas da frente e arqueia a coluna. Com os meses, isso pode gerar problemas nos cotovelos, nos ombros, nos punhos e na musculatura da coluna, e essas compensações entram no plano de tratamento.

Quais técnicas de reabilitação são usadas e para que servem?

TécnicaFunção descrita no capítulo
Campos eletromagnéticos pulsados (magnetoterapia)Ajudam a controlar a evolução do desgaste: reduzem a inflamação, diminuem a destruição da cartilagem e estimulam a produção de colágeno
Fotobiomodulação (laserterapia)Ajuda a preservar a articulação, favorecendo a regeneração da cartilagem e prevenindo a degeneração; em casos crônicos, contribui para controlar a sensibilização à dor
Ultrassom terapêuticoAlivia a dor e melhora a mobilidade da articulação
Esteira aquática (hidroesteira)Ganho de massa muscular e de amplitude de movimento com baixo impacto na articulação
Exercícios terapêuticosFortalecimento, força e resistência, com progressão gradual e individualizada

Como a melhora nem sempre é visível a olho nu, o acompanhamento combina o exame do veterinário fisiatra e o relato do tutor.

E depois da cirurgia?

  • Colocefalectomia: os exercícios começam no momento definido pela equipe, conforme a evolução do cão.
  • Denervação: como a dor diminui muito, alguns cães tendem a exagerar nos exercícios mesmo com a articulação ainda desgastada. O ritmo precisa ser controlado.
  • Sinfisiodese e osteotomias (filhotes): a reabilitação respeita a fase de crescimento, com exercícios definidos para cada caso.
  • Prótese de quadril: o período de repouso e o retorno às atividades seguem a orientação do cirurgião.

O que o tutor pode fazer em casa?

  • Manter o peso sob controle. O controle de peso faz parte do tratamento.
  • Seguir a orientação sobre exercícios. A quantidade e o tipo de atividade devem ser os definidos pela equipe.
  • No filhote de raça predisposta, alinhar com o veterinário a alimentação, o ritmo de ganho de peso, a suplementação de cálcio e o momento da castração.
  • Observar e anotar sinais de melhora: cão mais disposto e ativo, comendo melhor, querendo subir e descer do sofá e do carro e voltando a fazer o que tinha deixado de fazer.
  • Após cirurgia, seguir à risca o repouso e as restrições passadas pela equipe.

Quando levar o cão ao veterinário?

Procure avaliação se o seu cão mancar, tiver dificuldade para se levantar ou subir escadas, evitar exercício ou perder músculo nas patas traseiras.

Em filhotes de raças predispostas, vale conversar cedo com o veterinário sobre o acompanhamento do quadril.

O que esperar do tratamento da displasia?

A displasia é uma condição que progride com o tempo. O tratamento não promete apagar a doença: ele busca controlar a dor, frear o desgaste e manter o cão funcional e com qualidade de vida.

Com honestidade, também é preciso saber que em cães idosos outras doenças e a sobrecarga em outras articulações exigem um plano mais cuidadoso.

E em gatos? Displasia coxofemoral felina

Gatos também têm displasia, e ela é mais comum do que parece. O desgaste do quadril é relativamente frequente entre as doenças articulares felinas, mas acaba subdiagnosticado porque é difícil perceber que um gato está mancando.

  • Frequência: o desgaste causado pela displasia aparece em 6,6 a 32% dos gatos domésticos, conforme o estudo.
  • Raças: gatos de raça pura são mais afetados (12,3%) do que os sem raça definida (5,8%). O Maine Coon lidera (18 a 21%), seguido do Persa e do Himalaia.
  • Causa: provavelmente genética; o principal defeito é um acetábulo raso.
  • Doença associada: gatos têm três vezes mais chance de ter displasia junto com luxação de patela medial.

Os sinais costumam surgir quando o desgaste já está avançado e muitas vezes são de comportamento: ficar mais parado, relutar em pular ou subir escadas, andar agachado, perda de apetite, menos cuidado com a higiene e mudanças de comportamento. O cuidado em casa faz diferença real: facilitar o acesso a camas e caixa de areia, manter o peso ideal e conversar com o veterinário sobre dietas ricas em ômega-3. A reabilitação também pode ajudar gatos.

Quais outras doenças afetam o quadril?

  • Necrose asséptica da cabeça do fêmur (Legg-Calvé-Perthes): atinge principalmente cães jovens de raças pequenas, em geral entre 4 e 11 meses.
  • Luxação coxofemoral traumática: a cabeça do fêmur sai do encaixe após um trauma de alto impacto, na maioria das vezes acidentes com automóveis.
  • Displasia fiseal da cabeça femoral em gatos: a cabeça do fêmur desliza na linha de crescimento sem trauma importante, sobretudo em gatos machos e acima do peso.

De onde vêm estas informações?

Este artigo se baseia no Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia e também Fundador da Mundo à Parte, rede de fisioterapia veterinária com mais de 100 unidades em 9 países. Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico-veterinário.

Perguntas frequentes sobre displasia coxofemoral

Displasia coxofemoral tem cura?

Não há promessa de cura: o foco do tratamento é controlar a dor, estabilizar a articulação, frear o desgaste e devolver função. A melhor opção depende da avaliação veterinária.

Com quantos meses a displasia aparece no cão?

Varia. Em cães jovens, entre 4 e 12 meses, os sinais costumam surgir de forma aguda, ligados à frouxidão do quadril. Depois dos 12 meses, os sinais são parecidos, mas ligados ao desgaste da articulação. Alguns cães quase não mostram sinais, e a displasia aparece só no raio-X.

Cachorro pequeno pode ter displasia de quadril?

Pode. A displasia é mais comum em raças grandes e gigantes, mas há muitos relatos em cães pequenos e médios, especialmente Pugs, Bulldogs e alguns Terriers.

Cão com displasia pode fazer exercício?

Sim, do jeito orientado pela equipe veterinária. A quantidade e o tipo de atividade são definidos para cada cão, e a reabilitação pode usar exercícios dosados e esteira aquática para ganhar músculo com baixo impacto.

Fisioterapia substitui a cirurgia?

Depende do caso, e quem define é o veterinário. A fisioterapia faz parte do tratamento com ou sem cirurgia.

Gato também tem displasia de quadril?

Tem. O Maine Coon é a raça mais afetada, seguido do Persa e do Himalaia. Como é difícil perceber que um gato está mancando, os sinais costumam ser de comportamento: ficar mais parado, evitar pular, cuidar menos da higiene e mudar os hábitos de xixi e cocô.

Seu cão tem sinais de displasia?

Se ele manca, demora para levantar ou já tem diagnóstico de displasia, uma avaliação com um veterinário fisiatra define o plano certo para o momento dele, junto com o veterinário que já o acompanha. Encontre a unidade Mundo à Parte mais próxima e agende a avaliação do seu cão ou gato.

Guias por raça

Veja o guia completo das raças com predisposição à displasia coxofemoral, com sinais de alerta, cuidados e reabilitação: