Luxação de patela em cães e gatos: sinais e tratamento

Lulu da Pomerânia caminhando em sala de reabilitação veterinária

Luxação de patela em cães e gatos é a perda do encaixe normal entre a patela (popularmente chamada de rótula), o osso do joelho que desliza sobre o fêmur a cada movimento, e o sulco do fêmur por onde ela deveria correr (o sulco troclear), fazendo a patela sair desse trilho para o lado de dentro da pata (luxação medial, a mais frequente), para o lado de fora (luxação lateral) ou para os dois lados (luxação bidirecional). Ela não é uma doença em si, e sim um sinal clínico de uma alteração do desenvolvimento, que tem mais de uma causa e é muito frequente no joelho dos cães.

Se o seu cão manca de vez em quando de uma pata traseira, ou estica essa pata para trás como se desse um coice, este guia é para você. Esse movimento, na maioria das vezes, é o jeito que o próprio animal encontra de devolver a patela ao lugar. A boa notícia: o prognóstico da luxação de patela é bom, e a reabilitação com veterinário fisiatra acompanha o animal antes e depois do tratamento cirúrgico.

Em resumo:

  • A luxação de patela pode afetar cães e gatos, de pequeno e de grande porte. Os cães de pequeno porte são os mais atingidos: têm 12 vezes mais risco do que os de grande porte.
  • A grande maioria das luxações é medial, com a patela saindo para o lado de dentro.
  • As fêmeas são mais afetadas do que os machos.
  • O problema pode passar despercebido por anos. Mesmo com sinais leves, a recomendação é tratar cedo.
  • O diagnóstico é clínico. Raio-X e tomografia ajudam a planejar o tratamento.
  • A cirurgia corrige o alinhamento do joelho. A reabilitação prepara os músculos antes e ajuda na recuperação depois.

O que é a patela e o que acontece quando ela sai do lugar?

A patela fica presa aos tendões do quadríceps, o músculo responsável por esticar o joelho. A cada movimento, ela desliza sobre o sulco troclear, uma espécie de trilho na ponta do fêmur.

Ela tem funções importantes:

  • Diminui o atrito entre o quadríceps e o fêmur.
  • Muda a direção da força do quadríceps, como uma roldana muda a direção de um cabo.
  • O contato normal entre a patela e o sulco é necessário para manter a nutrição das superfícies da articulação.

Para a patela ficar estável, tudo precisa estar alinhado: o eixo do fêmur, o sulco troclear e a tuberosidade da tíbia, o ponto da tíbia onde o ligamento da patela se prende. Quando esse alinhamento se perde, a patela escapa do sulco.

Um ponto que muda a forma de enxergar o problema: a luxação de patela não é só uma questão do joelho. É um problema dinâmico, que envolve a estrutura e o funcionamento de toda a pata traseira.

Qual a diferença entre luxação medial e lateral de patela?

Luxação medialLuxação lateral
Para onde a patela saiPara o lado de dentro da pataPara o lado de fora da pata
FrequênciaA grande maioria dos casosMenos frequente
O que o tutor costuma verMancar mais evidente. Alguns tutores veem o animal esticar a pata para trás, como um coiceOs sinais variam de animal para animal
Direção da correçãoO alinhamento é levado para o lado de foraO alinhamento é levado para o lado de dentro

Também existe a luxação bidirecional, em que a patela pode sair para os dois lados.

Por que a luxação de patela acontece?

A causa ainda não é totalmente compreendida e envolve vários fatores. Hoje, a luxação de patela é considerada uma alteração do desenvolvimento: pode ou não estar presente ao nascimento e pode aparecer durante o crescimento ou mais tarde, o que sugere influência genética e ambiental. Normalmente, o animal nasce normal e desenvolve o problema à medida que cresce. A luxação causada por trauma é extremamente rara em cães.

Na luxação medial, a explicação mais aceita é que, durante o crescimento, surgem alterações nos ossos e músculos da pata traseira que desalinham o mecanismo que estica o joelho. As alterações mais descritas são:

  • sulco troclear raso;
  • desvios angulares no fêmur;
  • torção da tíbia para dentro;
  • tuberosidade da tíbia deslocada para dentro;
  • patela menor do que o normal (hipoplasia da patela).

Existe um efeito em cadeia: sem o atrito da patela, o sulco não se aprofunda. Por isso, animais que têm a luxação cedo, enquanto o sulco ainda está se formando, podem ter um sulco raso ou até ausente.

Outras causas descritas incluem a atrofia do quadríceps, deformidade da pelve, luxação da cabeça do fêmur, retirada cirúrgica da cabeça do fêmur e a patela alta, quando o ligamento da patela é proporcionalmente mais longo. No Buldogue Francês, um estudo aponta a rotação do fêmur e a conformação do quadril como peças centrais.

Quais raças têm mais luxação de patela?

As raças mais afetadas são, principalmente, de pequeno porte:

  • Poodle
  • Lulu da Pomerânia (Pomeranian)
  • Yorkshire Terrier
  • Chihuahua
  • Buldogue Francês
  • Lhasa Apso
  • Cavalier King Charles Spaniel
  • Bichon
  • Pug
  • Buldogue
  • West Highland White Terrier
  • Jack Russell Terrier
  • Shih Tzu

Alguns autores também citam maior ocorrência em Cocker Spaniel, Labrador e Retriever de pelo curto.

Outros fatores observados:

  • Porte: cães de pequeno porte têm 12 vezes mais risco do que os de grande porte.
  • Sexo: fêmeas são mais afetadas do que machos.
  • Castração precoce: parece ser um fator de risco. Cães castrados têm três vezes mais chances de desenvolver a luxação de patela.
  • Gatos: também podem ter luxação de patela. Neles, a relação entre o tamanho da patela e o sulco do fêmur pode ser um fator determinante.

Quais sinais de luxação de patela o tutor percebe em casa?

Os sinais variam bastante. Os mais comuns são:

  • Mancar que vai e volta em uma pata traseira (claudicação intermitente).
  • O “coice”: o animal estica a pata traseira para trás. Na maioria das vezes, esse movimento devolve a patela ao sulco.
  • Dor ao toque no joelho.
  • Menos peso na pata afetada, com perda de músculo nela. Em compensação, o animal joga mais peso nas patas da frente.
  • Resistência a dobrar o joelho, o que favorece contraturas e perda de músculo mais cedo.
  • Menos disposição e dificuldade para andar, com o passar do tempo.
  • Nos casos mais severos, o animal pode deixar de usar a pata.

Quando as contraturas são severas, o animal passa o peso do corpo para as patas da frente, o que sobrecarrega a região do pescoço. As costas arqueadas (cifose) também são um achado comum nesses casos.

Atenção: muitos animais não mostram sinal nenhum no começo. A luxação pode passar despercebida por anos, e alguns cães adultos e idosos só começam a mancar quando surgem artrose ou ruptura do ligamento cruzado cranial.

Como é feito o diagnóstico da luxação de patela?

O diagnóstico é clínico, feito no exame físico. O veterinário:

  • observa o animal caminhando: se manca, se tem dificuldade para andar, o formato das patas traseiras, se estica o joelho ao caminhar e se há perda de músculo;
  • localiza a patela com as mãos e a movimenta para os lados, para perceber se ela está instável;
  • faz movimentos de rotação da tíbia com o joelho esticado e dobrado;
  • verifica se há estalos na articulação (crepitação), dor e sinais de lesões em ligamentos, como o cruzado.

Raio-X e tomografia ajudam a planejar o tratamento, porque mostram onde estão os desvios nos ossos. Na reabilitação, o veterinário fisiatra examina aspectos neurológicos, ortopédicos e sistêmicos, e analisa todos os músculos que dobram e esticam as patas traseiras.

O que significam os graus da luxação de patela?

A luxação de patela é classificada em quatro graus, do I ao IV. O grau é definido pelo veterinário no exame. Ele ajuda a escolher o tratamento, mas não conta a história toda: a classificação não corresponde necessariamente aos sinais que o animal apresenta.

Graus I e IIGraus III e IV
Contraturas muscularesComuns no quadrícepsTambém no quadríceps, e podem ser severas nos músculos da parte de trás da coxa
Objetivo da reabilitaçãoQuando não há desvios nos ossos: aliviar a dor e melhorar a musculatura para sustentar a estabilidade do joelhoPreparar a musculatura para a cirurgia
Depois da cirurgiaVaria conforme o casoO animal pode passar a grau I

Por que não vale esperar os sinais piorarem?

Porque as consequências para o joelho são sérias. Com o tempo, podem surgir:

  • lesões na cartilagem da patela, do sulco e do fêmur;
  • osteoartrite (artrose);
  • sulco troclear raso e desvios nos ossos do fêmur e da tíbia;
  • lesões no ligamento cruzado cranial. Nas luxações crônicas, esse ligamento fica sob tensão, porque o quadríceps desalinhado não consegue estabilizar o joelho.

Por isso, a orientação do capítulo é clara: a luxação de patela deve ser tratada cedo, mesmo quando os sinais são leves. A instabilidade da patela já é um sinal clínico, e deixá-la de lado permite que ela cause danos irreversíveis ao joelho.

Quando a luxação de patela vai para cirurgia e quando não vai?

A luxação de patela é um problema mecânico: o quadríceps está desalinhado em relação ao eixo da pata. Por isso, o tratamento clínico (controle da dor e fisioterapia) tem dois papéis: aliviar o quadro ou deixar o animal em condição mais favorável para a correção cirúrgica.

O que a cirurgia corrige: o objetivo principal é realinhar o quadríceps e levar a patela de volta ao sulco. Conforme o caso, o cirurgião pode combinar correções nos ossos com a reconstrução de tecidos moles, aprofundar o sulco troclear e usar suturas que diminuem a rotação da tíbia.

Quando a cirurgia costuma não ser o caminho: às vezes, a luxação é só um achado durante o exame de outro problema. Nesses casos, é raro indicar cirurgia, e muitas vezes se opta pelo tratamento conservador, em que a fisioterapia atua no alívio da dor, no controle da inflamação e na qualidade de vida.

Como a reabilitação ajuda antes e depois da cirurgia?

Antes da cirurgia

Músculos contraturados e encurtados são difíceis de manusear durante a cirurgia. A reabilitação antes da operação se mostra eficiente para aumentar a amplitude de movimento, diminuir as contraturas e aliviar a dor. Relaxar os músculos contraturados e ganhar um pouco de movimento ajuda o animal antes, durante e depois da cirurgia.

Depois da cirurgia

No começo, os objetivos são aliviar a dor, diminuir aderências, recuperar a mobilidade do joelho de forma leve, alongar os músculos de forma sutil e ajudar a consolidação do osso, quando houve correção óssea. Para o osso cicatrizar, o veterinário fisiatra estimula o animal a apoiar a pata o quanto antes. O alongamento fica de fora nos primeiros dias e pode entrar de forma branda a partir dos 20 dias, com a intensidade aumentando aos poucos. O veterinário fisiatra conhece a técnica cirúrgica realizada e, se perceber algum sinal de complicação, encaminha o animal ao cirurgião responsável.

Quais técnicas o veterinário fisiatra usa na luxação de patela?

  • Cinesioterapia (exercícios terapêuticos): fortalece os músculos, aumenta a amplitude do movimento e estimula o apoio precoce da pata. Alguns exercícios são adaptados, como os cavaletes no chão, para o joelho não dobrar demais.
  • Hidroesteira (esteira dentro da água): favorece o apoio precoce da pata, o reforço muscular e a resistência com baixo impacto. Na luxação de patela, a água fica na altura do quadril, para evitar que o joelho dobre por completo.
  • Eletroestimulação neuromuscular: usada nos grupos musculares, com atenção maior aos músculos do lado contrário ao da luxação. Fortalecê-los melhora a estabilidade da pata traseira.
  • Exercícios de contração sem movimento (isometria) com elástico de resistência: ativam grupos musculares específicos. Outras formas de uso do elástico são contraindicadas, porque podem piorar o grau da luxação.
  • Massagem, infrassom, TENS, ultrassom, radiofrequência e alongamentos: ajudam a relaxar os músculos contraturados. Relaxar vem antes de fortalecer.
  • Fotobiomodulação (laserterapia), magnetoterapia e ultrassom: auxiliam a cicatrização do osso, a condição dos músculos e o alívio da dor, e ajudam a manter a qualidade da cartilagem do joelho.

Quais cuidados ajudam em casa?

  • Evite exercícios que dobram muito o joelho, como senta-e-levanta, deita-e-levanta e natação, principalmente nos primeiros 21 dias depois da cirurgia e nos casos em tratamento conservador. Eles podem favorecer a saída da patela.
  • Caminhadas com calma: na fase inicial, se o animal já apoia a pata, a orientação é guia curta e velocidade lenta. Se ele não apoia, as caminhadas devem ser evitadas.
  • Não teste a patela com as mãos: depois da cirurgia, conferir se a patela sai do lugar com manobras manuais pode causar complicação.
  • Siga o plano individual: os exercícios são sempre adaptados a cada animal e à fase do tratamento.

Quando procurar um veterinário?

Procure avaliação se o seu cão ou gato manca de uma pata traseira (mesmo que vá e volte), estica a pata traseira para trás como um coice, sente dor no joelho, evita dobrar a pata ou está perdendo músculo nas patas de trás. Não espere os sinais piorarem: a luxação de patela deve ser tratada cedo, mesmo com sinais leves.

Qual é o prognóstico da luxação de patela?

O prognóstico é bom e depende muito da experiência do cirurgião e do grau da luxação. Animais com luxação grau III ou IV podem passar a grau I depois do tratamento cirúrgico. O prognóstico também depende de quanta artrose o joelho já tem no momento da cirurgia, mais um motivo para não adiar a avaliação. Com honestidade: com ou sem cirurgia, o desgaste da articulação vai acontecer com o tempo, e por isso o tratamento inclui recursos que ajudam a preservar a cartilagem.

De onde vêm as informações deste guia?

Este conteúdo foi construído a partir do capítulo sobre luxação de patela do Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia e também Fundador da Mundo à Parte, rede com mais de 100 unidades em 9 países. Este artigo é informativo e não substitui a avaliação de um médico-veterinário.

Perguntas frequentes sobre luxação de patela

Luxação de patela tem cura?

A cirurgia corrige o alinhamento do joelho e o prognóstico é bom: animais com luxação grau III ou IV podem passar a grau I depois da cirurgia. O resultado depende da experiência do cirurgião, do grau da luxação e de quanta artrose o joelho já tem. Mesmo assim, o desgaste da articulação continua acontecendo com o tempo, e por isso a reabilitação inclui recursos para preservar a cartilagem.

Todo cão com luxação de patela precisa operar?

Não existe uma regra única. A cirurgia é o que corrige o desalinhamento; o tratamento clínico alivia o quadro ou prepara o animal para a cirurgia. Quando a luxação é um achado no exame de um cão idoso avaliado por outro problema, é raro indicar cirurgia, e muitas vezes se opta pelo tratamento conservador, que atua na dor, na inflamação e na qualidade de vida.

Meu cachorro dá um coice com a pata traseira. Pode ser luxação de patela?

Pode. Na luxação medial, alguns tutores percebem o animal esticando a pata traseira para trás, como um coice. Na maioria das vezes, esse movimento devolve a patela ao sulco. O diagnóstico é feito pelo veterinário no exame físico.

Cachorro com luxação de patela pode nadar?

A natação dobra muito o joelho e deve ser evitada, principalmente nos primeiros 21 dias depois da cirurgia e nos casos em tratamento conservador. Na reabilitação, a hidroesteira é usada com a água na altura do quadril, para o joelho não dobrar por completo.

Gato também tem luxação de patela?

Tem. A luxação de patela pode afetar cães e gatos. Nos gatos, a relação entre o tamanho da patela e o sulco do fêmur pode ser um fator determinante.

Luxação de patela pode levar à ruptura do ligamento cruzado?

Pode estar ligada a ela. Nas luxações crônicas, o ligamento cruzado cranial fica sob tensão, porque o quadríceps desalinhado não consegue estabilizar o joelho. Alguns cães só começam a mancar quando já existe ruptura do ligamento cruzado cranial ou artrose.

Seu cão ou gato está mancando de uma pata traseira?

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