O Shih Tzu é uma raça de cão de companhia que o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais inclui no grupo das raças condrodistróficas, com predisposição à hérnia de disco, e na lista das raças mais afetadas pela luxação de patela.
Este guia reúne o que o tutor de Shih Tzu precisa saber: de onde vem a raça, como é a rotina de cuidados e, principalmente, quais sinais na coluna e no joelho pedem atenção. Mostra também o que a reabilitação com o veterinário fisiatra pode fazer em cada caso.
De onde vem o Shih Tzu e como é o temperamento da raça?
O Shih Tzu tem origem no Tibete e na China, onde foi criado como cão de companhia e ganhou espaço nos palácios da corte imperial chinesa. O nome costuma ser traduzido como “cão leão”, uma referência à pelagem farta e ao porte altivo.
É um cão feito para conviver de perto. Afetuoso, sociável e ligado à família, costuma se dar bem com crianças, idosos e outros animais, e se adapta bem à vida em apartamento.
O jeito dócil não tira a personalidade: o Shih Tzu gosta de atenção, de rotina e de estar no centro da casa.
Quais cuidados básicos a rotina do Shih Tzu pede?
- Pelagem: os pelos são longos e crescem sem parar. A escovação frequente evita nós, e a tosa regular facilita a higiene.
- Franja: muitos tutores prendem os pelos do alto da cabeça ou mantêm a franja aparada para deixar o rosto livre.
- Banho e secagem: depois do banho, secar bem a pelagem ajuda a mantê-la bonita e sem nós.
- Atividade: passeios tranquilos e brincadeiras dentro de casa costumam dar conta da energia da raça.
- Companhia: como é muito apegado à família, o Shih Tzu aproveita a presença e a interação diária com o tutor.
Quais são as doenças mais comuns no Shih Tzu — e como a reabilitação ajuda?
O Tratado aponta duas condições em que o Shih Tzu aparece como raça predisposta: a hérnia de disco, na coluna, e a luxação de patela, no joelho. Quando o tutor conhece os sinais de cada uma, consegue buscar avaliação cedo, e isso faz diferença no tratamento.
| Condição | O que o Tratado diz sobre o Shih Tzu | Onde afeta | Sinais que o tutor percebe |
| Hérnia de disco (doença do disco intervertebral) | Faz parte do grupo das raças condrodistróficas | Coluna e medula espinhal | Dor, costas arqueadas, andar descoordenado, fraqueza nas patas |
| Luxação de patela | Está na lista das raças mais afetadas | Joelho | Manqueira que vai e volta, “coice” com a pata de trás |
Por que o Shih Tzu está no grupo de risco da hérnia de disco?
O Tratado divide as raças de cães em dois grupos: condrodistróficas e não condrodistróficas. O Shih Tzu está no primeiro grupo, ao lado de raças como Dachshund, Pequinês, Beagle e Lhasa Apso.
Na prática, condrodistrofia é uma alteração genética que interfere no crescimento dos ossos e está ligada à calcificação dos discos da coluna. O disco intervertebral funciona como um amortecedor entre as vértebras. Quando perde água e elasticidade, ele fica mais suscetível a romper e a pressionar a medula espinhal.
O Tratado também deixa claro que o Dachshund é a raça mais vista na reabilitação por hérnia de disco. O Shih Tzu está no mesmo grupo, mas com percentuais de incidência menores. E a degeneração do disco, sozinha, não provoca a hérnia: outros fatores precisam estar presentes. Estar no grupo de risco não quer dizer que o cão vai adoecer. Quer dizer que vale a pena o tutor conhecer os sinais.
Nas raças condrodistróficas, os sinais costumam aparecer entre os 3 e os 7 anos de idade e são raros antes dos 2 anos. A região mais atingida é a toracolombar, a transição entre o tórax e a lombar, no meio das costas.
Quais sinais de hérnia de disco o tutor percebe em casa?
- Dor, com gemidos ou latidos de dor e resistência a se movimentar.
- Costas arqueadas (postura curvada), por causa da dor.
- Pescoço rígido, tremores musculares e dor intensa, quando a hérnia é na região do pescoço.
- Manqueira de uma pata e lambedura excessiva dos dedos, quando a hérnia comprime uma raiz nervosa.
- Andar descoordenado (ataxia) e fraqueza nas patas de trás (paresia).
- Dificuldade para urinar ou para fazer cocô.
- Nos casos mais graves, perda total dos movimentos das patas de trás.
Qual é a gravidade da hérnia de disco?
O quadro vai de apenas dor até a paralisia com perda do controle da urina. A gravidade depende da quantidade de material do disco que invade o canal da coluna e da velocidade com que esse material atinge a medula.
O tutor precisa saber que o quadro pode piorar rápido. Um cão que começa só com dor e leve descoordenação pode evoluir para graus mais graves se continuar pulando, correndo e brincando na fase aguda. Por isso o repouso orientado faz parte do tratamento.
A dor profunda, a capacidade do cão de perceber conscientemente um estímulo forte no osso dos dedos, é avaliada pelo veterinário. Se o cão perder os movimentos das patas, procure atendimento veterinário com urgência.
Em lesões de grande magnitude pode surgir ainda uma complicação muito grave, em que a medula se deteriora de forma progressiva. É mais um motivo para acompanhar de perto a evolução neurológica. Para entender a doença em detalhes, leia nosso guia sobre hérnia de disco em cães.
E quando o cão trata a hérnia e não volta a andar?
Às vezes, o cão faz a cirurgia e não recupera a dor profunda. Para alguns desses casos, o Tratado descreve uma reabilitação de última chance: o andar medular, também chamado de caminhar espinhal.
Mesmo depois de lesões graves e irreversíveis da medula, alguns cães voltam a caminhar graças a reflexos da própria medula espinhal, estimulados por movimentos repetitivos. É uma marcha involuntária: as patas de trás não acompanham perfeitamente as da frente, o cão tem dificuldade nas curvas e não consegue andar para trás.
- Só acontece quando a lesão está no meio das costas (região toracolombar). Lesões no fim da coluna, onde fica a cauda equina, não desenvolvem andar medular.
- A fisioterapia faz parte do processo.
- É um processo longo, e não acontece em todos os casos.
- O cão que desenvolve o andar medular precisa de cuidados de enfermagem permanentes, como esvaziar a bexiga, manter a pele limpa e evitar feridas.
- A perda da dor profunda, sozinha, não encerra as possibilidades de tratamento.
Por que o Shih Tzu aparece na lista da luxação de patela?
A luxação de patela acontece quando a patela (popularmente chamada de rótula) sai do sulco do fêmur onde deveria deslizar. O Tratado lista o Shih Tzu entre as raças mais afetadas, ao lado de Poodle, Yorkshire Terrier, Chihuahua, Lhasa Apso e Pug.
Raramente a causa é um trauma. A luxação é considerada uma doença do desenvolvimento, com influência genética e ambiental: durante o crescimento, o cão desenvolve alterações nos ossos e músculos das patas de trás que desalinham o mecanismo que estica o joelho. Na maioria dos casos a patela sai para o lado de dentro (luxação medial), e os cães de pequeno porte são os mais acometidos.
Quais sinais de luxação de patela o tutor percebe?
- Manqueira intermitente: o cão manca e depois volta a andar normalmente.
- O “coice”: o cão estica a pata de trás para trás, um movimento que muitas vezes devolve a patela ao lugar.
- Dor quando o joelho é tocado.
- Menos peso na pata afetada, que vai perdendo músculo.
- Com o tempo, o cão fica menos ativo e tem dificuldade para caminhar.
Fique atento: a luxação de patela pode passar despercebida por anos, porque no começo pode não dar sinais.
Qual é a gravidade da luxação de patela?
Segundo o Tratado, as consequências para a articulação são graves. Com a patela saindo do lugar, surgem lesões na cartilagem, osteoartrite (desgaste da articulação), deformidades nos ossos e lesão do ligamento cruzado. Por isso, ao notar qualquer sinal, vale procurar avaliação veterinária.
Veja mais no nosso guia sobre luxação de patela em cães.
E o ligamento cruzado?
Aqui o Tratado traz uma notícia tranquilizadora: o Shih Tzu está entre as raças com menor frequência de ruptura do ligamento cruzado. O risco maior está nas raças médias, grandes e gigantes. O ponto de atenção é outro: quando a luxação de patela é crônica, o ligamento cruzado fica sob tensão e pode se romper com o tempo.
Como a reabilitação com o veterinário fisiatra ajuda o Shih Tzu?
A reabilitação não substitui o diagnóstico nem a cirurgia, quando ela é indicada. As duas andam juntas. O veterinário fisiatra avalia o cão por inteiro, com exame neurológico e ortopédico, e monta um protocolo para cada fase: tratamento sem cirurgia, preparo para a cirurgia ou recuperação depois dela.
Como a reabilitação ajuda na hérnia de disco?
- Sem cirurgia: quando o tratamento conservador é o caminho escolhido, a reabilitação pode ajudar a controlar a dor, reduzir a contração muscular e favorecer a recuperação funcional.
- Depois da cirurgia: o momento de voltar à fisioterapia é combinado com o cirurgião. Recursos como a fotobiomodulação (laserterapia) e a magnetoterapia (terapia com campos magnéticos) ajudam a controlar a inflamação e a favorecer a reparação dos tecidos.
- Ganho de função: exercícios para recuperar a mobilidade, a sustentação do corpo, o equilíbrio, a propriocepção (a noção de onde estão as patas) e a força muscular.
- Vigilância neurológica: o veterinário fisiatra acompanha a evolução neurológica ao longo do tratamento.
- Cuidados com a bexiga: o tutor aprende a esvaziar a bexiga do cão e a manter a higiene, o que protege a qualidade de vida e reduz o risco de infecção urinária.
A recuperação costuma seguir uma ordem: primeiro volta a dor profunda, depois os movimentos, o abanar da cauda e o controle das fezes, então a marcha e, por último, a noção de posição das patas. O tempo de recuperação varia de cão para cão.
Como a reabilitação ajuda no andar medular?
Para os cães que não recuperam a dor profunda, a reabilitação usa recursos como:
- Esteira aquática (hidroesteira): ganho de massa muscular com a resistência da água, mais coordenação e repetição do movimento de marcha com a flutuação.
- Eletroestimulação neuromuscular e cinesioterapia (exercícios terapêuticos): feitas com constância, desenvolvem a musculatura das patas de trás e da coluna.
- Exercícios em casa: o veterinário fisiatra pode ensinar ao tutor estímulos diários, como escovar as patas de trás no sentido contrário ao pelo e pressionar entre os dedos para ativar o reflexo.
- Tratamento das compensações: dor no pescoço e contraturas nas patas da frente, que aparecem pelo esforço extra para se locomover.
Como a reabilitação ajuda na luxação de patela?
Sem cirurgia, a fisioterapia atua na dor, no controle da inflamação e na qualidade de vida, mas não recoloca a patela no lugar. Saber disso desde o início ajuda o tutor a ter expectativas realistas.
| Situação | Objetivo da reabilitação |
| Graus I e II, sem desvios nos ossos | Aliviar a dor e fortalecer a musculatura que sustenta a estabilidade do joelho |
| Antes da cirurgia | Relaxar os músculos contraídos e ganhar amplitude de movimento para o cão chegar em melhor condição à cirurgia |
| Depois da cirurgia | Aliviar a dor, reduzir aderências, recuperar a mobilidade aos poucos, apoiar a consolidação óssea e ganhar massa muscular |
| Cães idosos ou com quadros crônicos | Tratar as compensações, como dor no pescoço e na coluna e contraturas musculares |
Entre os recursos descritos estão infrassom, ultrassom, alongamentos, massagem, radiofrequência, fotobiomodulação e magnetoterapia. O veterinário fisiatra também escolhe exercícios adequados a cada fase.
Com ou sem cirurgia, o desgaste do joelho acaba acontecendo. Por isso o protocolo inclui terapias que ajudam a preservar a qualidade da cartilagem.
De onde vêm as informações deste artigo?
Todo o conteúdo de saúde deste artigo tem como base o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia, também Fundador. Foram usados os capítulos Doença do Disco Intervertebral e Reabilitação da Doença do Disco Intervertebral (Jennifer Hummel); Caminhar Espinhal em Cães e Gatos com Lesões Medulares Toracolombares (Bruno Martins Araújo e Eduardo Alberto Tudury); Reabilitação no Andar Medular (Jennifer Hummel); Luxação de Patela (Daniel Tonin Benedetti, Alexandre Schmaedecke e Danilo Marques); Reabilitação na Luxação de Patela (Jennifer Hummel e Gustavo Vicente); e Insuficiência do Ligamento Cruzado Cranial e Lesão de Menisco (Eloy Curuci e Wendell Barboza).
Onde levar o seu Shih Tzu para uma avaliação?
Se o seu Shih Tzu sente dor ao se mexer, anda descoordenado, manca de uma pata de trás ou dá o “coice” com ela, o próximo passo é uma avaliação com um veterinário fisiatra. Se ele perdeu os movimentos das patas, procure atendimento veterinário com urgência.
A Mundo à Parte, rede fundada pelos autores do Tratado, tem mais de 100 unidades em 9 países.
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Perguntas frequentes
1. O Shih Tzu tem predisposição à hérnia de disco?
Sim. O Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais inclui o Shih Tzu no grupo das raças condrodistróficas, predispostas à hérnia de disco. A incidência é menor que a do Dachshund, a raça mais vista na reabilitação. Nas raças condrodistróficas, os sinais costumam aparecer entre os 3 e os 7 anos de idade.
2. Como saber se meu Shih Tzu tem luxação de patela?
Os sinais mais comuns são a manqueira que vai e volta, o “coice” (o cão estica a pata de trás para trás) e a dor quando o joelho é tocado. Como pode não dar sinais no início, a luxação pode passar despercebida por anos. O diagnóstico é clínico e feito pelo médico-veterinário no exame físico.
3. Shih Tzu com hérnia de disco sempre precisa de cirurgia?
Não necessariamente. O tratamento pode ser conservador, com fisioterapia, acupuntura, medicação e repouso, ou cirúrgico, e a escolha é do veterinário para cada caso.
4. O que é o andar medular?
É uma marcha involuntária que alguns cães desenvolvem após lesões graves e irreversíveis da medula, graças a reflexos da própria medula estimulados por movimentos repetitivos. É considerado nos cães que não recuperam a dor profunda depois da cirurgia e só é possível quando a lesão está na região toracolombar.
5. O Shih Tzu tem risco de romper o ligamento cruzado?
O Tratado coloca o Shih Tzu entre as raças com menor frequência de ruptura do ligamento cruzado. O risco maior está nas raças médias, grandes e gigantes. Ainda assim, a luxação de patela crônica deixa o ligamento cruzado sob tensão, e ele pode se romper com o tempo.
6. A fisioterapia cura a luxação de patela?
Não. Sem cirurgia, a fisioterapia atua na dor, no controle da inflamação e na qualidade de vida. Antes da cirurgia, prepara a musculatura. Depois dela, ajuda na recuperação da mobilidade, da consolidação óssea e da massa muscular.
Ou veja a lista de unidades por estado e cidade.