Hérnia de disco em cães e gatos (DDIV): sinais e tratamento

Hérnia de disco em cães e gatos, também chamada de doença do disco intervertebral (DDIV), é uma condição da coluna vertebral em que o disco intervertebral (a “almofada” que amortece o impacto entre uma vértebra e outra) se desgasta e se desloca para dentro do canal por onde passa a medula espinhal, comprimindo a medula ou os nervos e provocando desde dor até dificuldade para andar e paralisia das patas. É um dos problemas neurológicos mais diagnosticados em cães: responde por até 3,7% das consultas veterinárias da espécie e por 72% das causas de paralisia aguda.

Se o seu cão vocaliza de dor ao se mexer, está com as costas arqueadas ou começou a arrastar as patas de trás, este guia é para você. O tratamento pode ser conservador ou cirúrgico, e a reabilitação faz parte dos dois caminhos.

Em resumo:

  • Hérnia de disco e DDIV são dois nomes para o mesmo problema.
  • Raças condrodistróficas, de pernas curtas, como o Dachshund, são as mais afetadas. Em gatos, a doença é bem mais rara.
  • O meio das costas (região toracolombar) concentra de 66 a 87% dos casos em cães.
  • Quando o animal não consegue mais andar ou perde a sensibilidade das patas, procure atendimento veterinário com urgência.
  • O diagnóstico combina exame clínico e exames de imagem, definidos pelo veterinário.
  • A reabilitação faz parte do tratamento, com ou sem cirurgia.

O que acontece na coluna quando há hérnia de disco?

Entre uma vértebra e outra existe um disco com duas partes: uma camada externa de fibras (o anel fibroso) e um miolo gelatinoso no centro (o núcleo pulposo). Juntas, elas amortecem os movimentos de caminhada, saltos e corridas.

Com o envelhecimento, ou mais cedo por causa da genética, o disco perde água, perde a elasticidade e surgem fissuras nas fibras. Quando o material do disco invade o canal da coluna, ele comprime a medula espinhal ou as raízes dos nervos. É daí que vêm a dor e as alterações no andar.

Em discos desgastados, a hérnia aparece principalmente de duas formas:

Hérnia extrusivaHérnia protrusiva
O que aconteceA camada externa do disco se rompe e o miolo extravasa para dentro do canal da medulaO disco inteiro, camada externa e miolo juntos, se projeta para dentro do canal e comprime a medula de forma lenta
Como começaDe forma aguda: os sinais podem avançar rapidamenteDe forma crônica: os sinais aparecem gradualmente
Quem costuma terPrincipalmente raças condrodistróficas, como o Dachshund, em geral antes dos 7 anos. Também pode afetar outras raças e gatosPrincipalmente raças não condrodistróficas, na maioria de médio ou grande porte, em geral depois dos 7 anos
Nome técnicoHansen tipo IHansen tipo II

Por que a hérnia de disco acontece e quais raças têm mais risco?

A base do problema é a degeneração do disco, ou seja, o desgaste da estrutura, que faz parte do envelhecimento natural. Sozinha, ela não provoca a hérnia: outros fatores precisam se somar para que o material do disco avance para dentro do canal da medula. Em algumas raças, esse desgaste começa muito cedo por causa da genética.

São as chamadas raças condrodistróficas: cães com uma alteração genética que encurta os ossos das pernas e faz os discos perderem água e calcificarem precocemente, a partir dos 2 meses de idade. A raça mais vista na reabilitação é o Dachshund, que tem incidência de hérnia de disco 12,6 vezes maior que a das demais raças. Ao longo da vida, entre 19 e 24% dos Dachshunds desenvolvem sinais da doença.

Um ponto importante para o tutor de Dachshund: nessa raça, a hérnia extrusiva não mostrou relação com o peso, a condição corporal ou o nível de atividade do cão. O que tem relação com o risco são medidas do próprio corpo, como o comprimento da coluna e o encurtamento das pernas.

GrupoRaças predispostasIdade típica dos primeiros sinais
Raças condrodistróficasDachshund, Pequinês, Beagle, Cocker Spaniel, Buldogue Francês, Buldogue Inglês, Lhasa Apso, Shih Tzu, Basset Hound, Schnauzer miniatura, Pembroke Welsh Corgi, Cavalier King Charles Spaniel, Bichon FriséPico entre 3 e 7 anos. Raro antes dos 2 anos
Raças não condrodistróficasLabrador, Pastor Alemão, Rottweiler, Boxer, Dobermann, Dálmata, Dogue Alemão, São Bernardo, Collie, Chow-chowEm média, entre 6 e 8 anos
GatosPersas e British Shorthair parecem ter mais predisposição, mas essa relação ainda não está claraEntre 3 e 9 anos

E em gatos?

A hérnia de disco em gatos existe, mas é bem mais rara: a frequência cai para 0,24% nos felinos. O tipo mais comum nos gatos surge depois de um trauma ou de um exercício muito intenso e comprime pouco a medula. Em geral, não dói ao toque, e os sinais aparecem mais de um lado do corpo.

Quais são os sinais de hérnia de disco no cachorro?

Os sinais variam conforme a região da coluna afetada. Os principais são:

  • Dor na coluna, com vocalização e resistência a se movimentar.
  • Costas arqueadas, uma postura de proteção por causa da dor.
  • Pescoço rígido, às vezes com tremores musculares.
  • Mancar de uma pata, às vezes com perda rápida de músculo naquela pata.
  • Lamber ou mordiscar muito as patas: pode ser formigamento causado pelo nervo comprimido.
  • Andar cambaleante, com fraqueza e falta de coordenação nas patas.
  • Arrastar as patas traseiras ou não conseguir andar sozinho.
  • Xixi retido (o animal não consegue urinar) ou escapando sem controle.

A gravidade é descrita em degraus, do mais leve ao mais grave:

  • Só dor: o cão anda normalmente, mas sente dor na coluna.
  • Anda cambaleando: consegue caminhar, mas com fraqueza ou falta de coordenação.
  • Não consegue andar: mexe as patas, mas não se sustenta sozinho.
  • Paralisia: não mexe as patas, mas ainda sente dor quando o veterinário estimula os dedos com força.
  • Perda da sensibilidade profunda: paralisia sem nenhuma reação consciente a esse estímulo. É o quadro mais grave.

É comum um lado do corpo ficar mais afetado que o outro. E atenção: um cão que se sente melhor pode voltar a pular do sofá e piorar o quadro. Siga as orientações de atividade passadas pelo veterinário.

Os sinais mudam conforme a parte da coluna afetada?

Mudam, sim. Cada região da coluna tem um conjunto próprio de sinais:

Região da colunaSinais mais comuns
Pescoço (cervical)Dor intensa, pescoço rígido, tremores musculares, vocalização e resistência a se mexer, muitas vezes sem alteração no andar. Pode haver mancar de uma pata e lambedura das patas. Nos casos com compressão maior, fraqueza ou paralisia nas quatro patas
Meio das costas (toracolombar)É onde está a maioria dos casos. Costas arqueadas, falta de coordenação e fraqueza das patas traseiras, xixi retido e, nos casos mais graves, perda da sensibilidade profunda
Final da coluna (lombossacra)Dor intensa, mancar de uma pata traseira (pode parecer problema ortopédico), cauda flácida, dificuldade para controlar xixi e cocô. Em compressões mais severas, o animal pode morder as patas ou a cauda por causa do formigamento

Quando a hérnia de disco é uma emergência?

Procure atendimento veterinário com urgência se o seu cão ou gato:

  • não consegue mais andar ou está paralisado;
  • está piorando: os sinais podem avançar rapidamente depois que a hérnia acontece;
  • tem dor intensa que persiste mesmo com o tratamento;
  • não consegue urinar sozinho.

A sensibilidade profunda é avaliada pelo veterinário no exame neurológico.

Como é feito o diagnóstico da hérnia de disco?

O diagnóstico é feito pelo veterinário, que define quais exames são necessários em cada caso. Entre os recursos possíveis:

  • Exame neurológico: ajuda a localizar a região da coluna afetada.
  • Radiografia (raio-X): pode ajudar a descartar outras causas, como tumores, fraturas e luxações nas vértebras.
  • Tomografia: mostra bem ossos e discos calcificados. Exige anestesia.
  • Ressonância magnética: mostra onde está a lesão, a extensão dela e o comprometimento da medula.

A imagem sempre é lida junto com o quadro clínico. Um disco com sinais de desgaste no exame nem sempre é o que está causando os sintomas.

Hérnia de disco tem tratamento sem cirurgia?

Tem. Conforme o caso, o veterinário pode indicar um tratamento conservador, que pode reunir:

  • Repouso, com restrição rigorosa de atividades.
  • Controle da dor, com tratamento prescrito pelo médico-veterinário.
  • Fisioterapia com veterinário fisiatra.
  • Acupuntura.

O tempo de restrição de atividades e a evolução esperada são definidos pelo veterinário para cada caso.

O que a cirurgia faz?

A cirurgia descomprime a medula, removendo todo ou parte do material do disco que invadiu o canal. A indicação é definida pelo veterinário para cada caso.

A reabilitação não substitui a cirurgia: as duas trabalham juntas, e a reabilitação faz parte da recuperação da função.

Como a reabilitação ajuda na recuperação da hérnia de disco?

A reabilitação é conduzida por um veterinário fisiatra. O plano muda conforme a região da coluna, a fase da lesão e as características de cada animal. Os objetivos são:

  • controlar a dor e reduzir a contração muscular;
  • modular a inflamação e favorecer a reparação dos tecidos;
  • preservar ou recuperar a mobilidade das articulações;
  • estimular a sustentação do corpo, o equilíbrio e a noção de posição das patas;
  • recuperar força e resistência muscular.

Depois da cirurgia, o momento de iniciar a reabilitação é combinado com o cirurgião.

Cinesioterapia (exercícios terapêuticos)

São exercícios passivos e ativos, como senta-e-levanta, equilíbrio sobre bola e caminhada entre cones. A cinesioterapia tem papel central na recuperação, tanto nas sessões quanto nos exercícios feitos em casa sob orientação do veterinário fisiatra.

Hidroterapia (esteira aquática)

Na esteira aquática, a flutuação na água facilita a repetição do movimento de andar, e a resistência da água ajuda a ganhar massa muscular.

Fotobiomodulação (laserterapia)

É usada para modular a inflamação e favorecer a circulação nos tecidos e o ambiente de reparação, inclusive depois da cirurgia. Também entra no tratamento de contraturas musculares e da dor no pescoço.

Eletroestimulação

A eletroestimulação neuromuscular é usada para desenvolver massa muscular nas patas traseiras e na musculatura ao longo da coluna. O TENS, outra forma de estimulação elétrica, é usado no tratamento da dor no pescoço.

Acupuntura

Pode fazer parte do tratamento conservador, ao lado da fisioterapia, conforme indicação veterinária.

Magnetoterapia

É usada para modular a inflamação e favorecer um ambiente propício à recuperação do tecido nervoso.

Quais cuidados em casa ajudam na recuperação?

O que o tutor faz em casa pesa no resultado. Siga as orientações da equipe veterinária, que costumam incluir cuidados como:

  • Repouso rigoroso: nada de saltos, corridas, brincadeiras e passeios até que o quadro esteja estável.
  • Nada de pular: nem subir em móveis, nem subir escada, mesmo quando o cão parecer melhor.
  • Atenção à bexiga: se o animal não urina sozinho, siga a orientação veterinária sobre o esvaziamento da bexiga. A passagem de sonda não deve ser feita pelo tutor.
  • Mudança de posição: animais que não se levantam precisam mudar de posição com regularidade, conforme a orientação recebida.
  • Colchão adequado: colchões ortopédicos que redistribuem a pressão, como os modelos piramidais, ajudam a prevenir feridas de pressão.
  • Higiene: manter o animal limpo e seco ajuda a prevenir assaduras, dermatites e infecções urinárias.
  • Exercícios de casa: faça só os que foram ensinados, do jeito indicado. Execução errada pode sobrecarregar as articulações.

Quanto tempo leva a recuperação e o cão volta a andar?

Depende da gravidade da lesão, da região da coluna e das características de cada animal. O tempo de recuperação é estimado pelo veterinário para cada caso.

A recuperação costuma seguir a ordem inversa da piora: primeiro volta a sensibilidade profunda, depois os primeiros movimentos, o movimento da cauda, o controle das fezes, a marcha (ainda com algum desequilíbrio) e, por último, a noção de posição das patas.

Com honestidade, alguns pontos precisam ficar claros:

  • Às vezes o grande ganho é menos dor, mais qualidade de vida e mais funcionalidade.
  • A evolução varia de animal para animal, e a expectativa para cada caso é conversada com o veterinário.

E se o cão não voltar a andar depois da cirurgia?

Ainda existe um caminho. O andar medular não é outra doença. É uma estratégia de reabilitação para alguns cães que trataram a hérnia de disco (DDIV) e não voltaram a andar. A indicação depende da avaliação de cada caso.

Com estímulos repetidos e exercício intenso, os circuitos de reflexos da própria medula podem passar a gerar passos, mesmo sem a sensibilidade de volta. É um andar involuntário e diferente do normal: as patas de trás não acompanham as da frente, as curvas são difíceis e o animal não consegue andar para trás. Não acontece em todos os casos, e leva tempo. O animal continua precisando de cuidados permanentes, como o esvaziamento da bexiga. Os cuidados em casa, feitos conforme a orientação recebida, fazem parte do processo.

De onde vêm as informações deste guia?

Este conteúdo foi construído a partir do capítulo sobre doença do disco intervertebral do Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra, Fundadora da Mundo à Parte e autora do capítulo, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia e também Fundador da Mundo à Parte. É o mesmo conhecimento que orienta os veterinários fisiatras da rede Mundo à Parte, presente em mais de 100 unidades em 9 países.

Este artigo é informativo e não substitui a avaliação de um médico-veterinário. Nunca medique o seu animal por conta própria.

Perguntas frequentes sobre hérnia de disco

Hérnia de disco em cachorro tem cura?

Não existe uma resposta única. A evolução depende da gravidade da lesão e de cada animal, e em alguns casos o principal ganho é menos dor e mais qualidade de vida. O veterinário que acompanha o caso orienta qual é a expectativa para o seu animal.

Cachorro com hérnia de disco pode subir escada ou pular do sofá?

Durante a recuperação, siga a orientação do veterinário. Um cão que volta a pular do sofá no início do quadro, quando se sente mais disposto, pode piorar, e a restrição pode precisar continuar mesmo com a melhora.

A hérnia de disco pode voltar?

Pode. Quando há calcificação dos discos, ela costuma aparecer em mais de um (em média, 2 a 3 por cão), e essas calcificações indicam maior risco de uma nova hérnia depois da cirurgia. (remover a frase: repete a anterior, “essas calcificações indicam maior risco de uma nova hérnia depois da cirurgia”) A calcificação é típica das raças condrodistróficas e rara nas demais.

Gato também tem hérnia de disco?

Tem, mas é bem mais raro do que em cães: a frequência cai para 0,24% nos gatos. O tipo mais comum nos gatos costuma surgir depois de um trauma ou exercício muito intenso, em geral não dói ao toque e os sinais aparecem mais de um lado do corpo.

Seu cão ou gato está com sinais de hérnia de disco?

Agende uma avaliação com um veterinário fisiatra na unidade Mundo à Parte mais perto de você: encontre a sua unidade aqui e marque a avaliação do seu animal.

Guias por raça

Veja o guia completo das raças com predisposição à hérnia de disco, com sinais de alerta, cuidados e reabilitação: