Andar medular (também chamado de caminhar espinhal, marcha espinhal ou “spinal walking”) é uma forma de caminhar reflexa e involuntária que alguns cães, e também alguns gatos, desenvolvem com reabilitação intensiva quando ficam paraplégicos por uma lesão grave na medula da região toracolombar (meio das costas), como a hérnia de disco ou uma fratura de coluna, e não recuperam a sensibilidade dolorosa profunda das patas traseiras.
Se você chegou até aqui, provavelmente já passou por um caminho difícil: o diagnóstico, talvez a cirurgia, semanas de espera, e a notícia de que o seu companheiro ainda não sente as patas de trás. Este artigo existe para mostrar, com honestidade, que ainda pode haver um próximo passo e o que esperar dele.
O andar medular é uma doença?
Não. O andar medular não é uma doença nem um diagnóstico. É uma forma de caminhar que a reabilitação procura estimular nos casos em que o animal tratou a hérnia de disco (DDIV), ou sofreu um trauma ou fratura de coluna, e não voltou a andar porque não recuperou a sensibilidade dolorosa profunda.
Em outras palavras: é a continuação do tratamento para os pacientes que não tiveram a recuperação esperada. Uma chance a mais de voltar a ficar de pé e caminhar, mesmo depois de uma lesão medular grave.
O que é a sensibilidade dolorosa profunda e por que ela importa?
A sensibilidade dolorosa profunda (ou “dor profunda”) é a capacidade de o animal perceber, de forma consciente, um estímulo doloroso aplicado nas patas. O veterinário testa isso no exame neurológico: se o animal sente, ele tem uma reação de comportamento, como vocalizar, virar a cabeça ou tentar morder.
Ela é o principal fator para estimar o prognóstico nas lesões graves de medula:
- Quando a dor profunda está presente, o prognóstico de recuperação é favorável.
- Quando ela desaparece, o prognóstico passa a ser reservado na hérnia de disco e desfavorável nas fraturas de coluna, e é nesse grupo que o andar medular pode ser considerado.
Um detalhe importante: a pata mexer quando é tocada não significa, sozinho, que o animal está sentindo. Os reflexos da medula não comprovam a presença de sensibilidade profunda; para isso, é preciso uma resposta consciente, avaliada pelo veterinário.
Por que o andar medular acontece?
A medula espinhal não é só um “cabo” que leva ordens do cérebro até as patas. Ela também tem circuitos próprios, capazes de produzir movimentos automáticos, os chamados reflexos.
Quando a lesão fica no meio das costas, a parte da medula que comanda as patas traseiras (na região lombossacra, no final da coluna) continua preservada, mas perde a comunicação com o cérebro. Com estímulos e movimentos repetidos, esses circuitos locais podem ser “treinados” a produzir uma sequência rítmica: se levantar, apoiar o peso, dobrar uma pata enquanto a outra se estica e sustenta. Esse mecanismo de adaptação do sistema nervoso é chamado de plasticidade.
O resultado é um caminhar gerado pela própria medula, abaixo da lesão, sem a participação do cérebro. Por isso ele é involuntário: o animal não “decide” mexer as patas de trás. Elas respondem a estímulos na pele e nas almofadas das patas.
Andar medular é a mesma coisa que voltar a andar normalmente?
Não, e é importante saber a diferença para ter expectativas realistas:
| Característica | Andar voluntário recuperado | Andar medular |
|---|---|---|
| Quem comanda o movimento | O cérebro, com movimentos voluntários | Os circuitos da própria medula, de forma reflexa |
| Sensibilidade dolorosa profunda | Volta, e costuma ser o primeiro sinal da recuperação | Continua ausente |
| Como é a marcha | Volta com diferentes graus de incoordenação; em lesões mais graves, algumas sequelas podem ficar | As patas de trás não acompanham as da frente, há dificuldade nas curvas e o animal não consegue andar para trás |
| Controle de xixi e cocô | Faz parte da sequência de recuperação, quando ela acontece | Exige cuidados permanentes com bexiga e intestino |
Mesmo com essas limitações, é uma forma real de o animal readquirir a capacidade de caminhar, como mostram os estudos citados mais abaixo.
Quais cães e gatos podem desenvolver o andar medular?
O ponto decisivo é onde está a lesão. O andar medular depende de a lesão estar na região toracolombar, no meio das costas. É justamente nessa região que acontece a maioria das hérnias de disco em cães (de 66% a 87% dos casos). A doença aparece principalmente nas raças condrodistróficas, de pernas curtas, e o Dachshund é a raça mais vista na reabilitação.
| Situação | O andar medular é uma possibilidade? |
|---|---|
| Lesão toracolombar (meio das costas), sem dor profunda por volta de 30 dias após a cirurgia descompressiva | Sim, pode ser considerado |
| Lesão toracolombar antiga, sem dor profunda, que chegou à reabilitação em fase tardia | Sim |
| Lesão toracolombar recente, sem dor profunda, que não fez cirurgia | Sim, com avaliação individual |
| Cirurgia de fratura de coluna toracolombar, sem dor profunda | Sim, após liberação do cirurgião para a terapia na água e exercícios de maior movimento |
| Lesão na cauda equina (região lombossacra, no final da coluna) | Não, essas lesões não desenvolvem andar medular |
Cães mais jovens e mais leves têm maior probabilidade de desenvolver o andar medular. Em gatos também há relato: em um trabalho, um de cinco gatos com trauma na coluna desenvolveu o caminhar espinhal.
Quando começar a pensar no andar medular?
O andar medular pode ser considerado quando o animal não recupera a dor profunda por volta de 30 dias após a cirurgia descompressiva da hérnia de disco. Também entram nessa avaliação as lesões antigas que só chegaram à reabilitação em fase tardia e os animais com perda recente da dor profunda que não passaram por cirurgia.
Uma mensagem importante: a perda da dor profunda, sozinha, não deve desencorajar o tratamento. Muitos pacientes, principalmente com hérnia de disco, chegam à fisioterapia sem essa sensibilidade e a recuperam durante o tratamento, o que melhora o prognóstico de recuperação completa da função. Por isso, todo animal com perda da dor profunda deve ser tratado de forma completa, e a fisioterapia intensa deve começar o quanto antes.
Quais são as chances de o cão voltar a caminhar?
Não existe garantia de que o animal vai andar. Mas os estudos mostram que a possibilidade é real:
- Em um estudo com 81 cães paraplégicos sem dor profunda, 48 (59%) desenvolveram o caminhar espinhal com fisioterapia intensiva, que incluía esteira aquática.
- Em outro trabalho, dos 18 cães com hérnia de disco que não recuperaram a dor profunda, 7 (38%) voltaram a caminhar em até um ano e meio.
- Foi relatado um tempo médio de 86 a 115 dias (cerca de três a quatro meses) para o desenvolvimento do caminhar espinhal.
- O desenvolvimento foi proporcional à quantidade de exercício: quanto maior a quantidade de exercício, maior o desenvolvimento observado.
Ou seja: é um processo de meses, que depende de treino regular, e que acontece em uma parte dos pacientes, não em todos.
Quais sinais mostram que o andar medular está se desenvolvendo?
A evolução é acompanhada semana a semana. Alguns sinais que o veterinário fisiatra observa:
- Reflexo em massa: uma reação reflexa ampla das patas traseiras, disparada por estímulos na pele.
- Movimentos para se levantar: movimentos involuntários que ajudam o animal a sair da posição deitada e ficar em pé.
- Sustentação do peso: quando a parte de baixo da pata é estimulada, a pata oposta se estica e passa a sustentar o peso do corpo.
- Passos na esteira: o animal passa a fazer o movimento do passo sozinho.
- Passadas mais firmes e consistentes com o passar das semanas.
Se, em algum momento, o animal voltar a apresentar dor profunda, isso é uma ótima notícia: o retorno dessa sensibilidade melhora o prognóstico de recuperação completa da função.
Como funciona a reabilitação para o andar medular?
Todo início de sessão começa com uma avaliação completa feita pelo veterinário fisiatra. Ele confere a presença ou ausência de dor profunda, o estado geral, as escaras e feridas de arrasto, o manejo do xixi e do cocô, e os pontos de contratura e de dor.
A partir daí, o protocolo é montado para o momento do paciente. Em um animal operado, por exemplo, a esteira aquática só entra depois da retirada dos pontos e se não houver complicações. A velocidade e o tempo de exercício aumentam aos poucos, semana a semana.
Quais técnicas são usadas?
- Esteira aquática (hidroterapia): uma das ferramentas mais importantes. A resistência da água ajuda a ganhar massa muscular, o movimento da água ajuda na coordenação e a flutuação facilita a repetição do movimento de caminhar.
- Esteira seca com suporte: o animal é sustentado por faixas na barriga enquanto treina o passo de forma controlada.
- Cinesioterapia intensiva: exercícios passivos e ativos, feitos com constância, para condicionar as patas traseiras.
- Estímulo de reflexos: estímulos nos dedos, nas almofadas das patas e na cauda que desencadeiam os reflexos que compõem o andar medular.
- Eletroestimulação neuromuscular: usada para desenvolver massa muscular nas patas traseiras e na musculatura das costas.
- Tratamento das contraturas e da sobrecarga: como o animal joga o peso para a frente, é comum surgir dor no pescoço e contraturas; tratadas com alongamento, massagem, infrassom, ultrassom, fotobiomodulação (laserterapia), magnetoterapia e TENS, conforme cada paciente.
O que o tutor pode fazer em casa?
A esteira aquática é importante, mas não é o único recurso. O manejo em casa precisa ser regular e intenso. Já na primeira avaliação, o veterinário fisiatra pode indicar exercícios diários como:
- Estímulo das patas traseiras, escovando no sentido contrário ao pelo ou pressionando entre os dedos para estimular o reflexo de dobrar a pata.
- Senta-e-levanta assistido: com as patas bem posicionadas, o tutor estimula o animal a se erguer. No começo é normal que ele não tenha força, e mesmo assim o estímulo deve ser feito.
- Exercícios de equilíbrio em bola, para fortalecer o tronco.
Importante: esses exercícios só devem ser feitos depois de ensinados e conferidos pelo profissional. Executados do jeito errado, podem causar sobrecarga ou danos às articulações.
Quais cuidados continuam mesmo depois que o animal volta a andar?
Todos os animais paraplégicos que desenvolvem o andar medular precisam de cuidados permanentes. Eles incluem:
- Esvaziamento da bexiga: o esvaziamento manual é ensinado pelo profissional. A sondagem é feita pelo profissional, não pelo tutor, porque pode lesionar a uretra.
- Manejo do intestino: com massagem abdominal e alimentação adequada.
- Higiene e fraldas: ajudam a prevenir assaduras e feridas na pele.
- Prevenção de feridas de arrasto e escaras.
- Mudança de posição: mudar a posição do animal deitado a cada 4 horas.
- Fisioterapia contínua: para evitar perda de músculo, contraturas e perda da função das articulações.
- Atenção à urina: cheiro forte ou urina turva podem sugerir infecção urinária; avise o veterinário.
Quando procurar um veterinário fisiatra?
O quanto antes. Procure uma avaliação se:
- seu cão ou gato fez cirurgia de hérnia de disco e continua sem sentir as patas traseiras;
- ele ficou paralisado depois de um trauma ou fratura de coluna;
- a lesão é antiga e ele nunca fez reabilitação;
- você ouviu que as chances de recuperação são pequenas e quer entender se ele é candidato ao andar medular.
Em que se baseia este conteúdo?
Este artigo foi elaborado a partir do Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia e também Fundador da Mundo à Parte. A Mundo à Parte reúne mais de 100 unidades em 9 países. Este artigo é informativo e não substitui a avaliação de um médico-veterinário.
Perguntas frequentes sobre andar medular
Meu cachorro não voltou a andar depois da cirurgia de hérnia de disco. Ainda existe chance?
Pode existir. Se ele não recuperou a dor profunda por volta de 30 dias após a cirurgia e a lesão é no meio das costas, o andar medular pode ser estimulado com reabilitação intensiva. Em um estudo, 59% dos cães paraplégicos sem dor profunda desenvolveram esse caminhar com fisioterapia intensiva. Não há garantia, e a indicação é feita para casos selecionados.
Se meu cão desenvolver o andar medular, ele vai voltar a sentir as patas?
Não é o andar medular que devolve a sensibilidade: ele acontece justamente sem a dor profunda. O animal também não anda para trás, tem dificuldade nas curvas e precisa de cuidados permanentes com bexiga, intestino e pele. Alguns pacientes recuperam a sensibilidade durante a reabilitação, o que melhora o prognóstico.
Quanto tempo demora para o andar medular aparecer?
Foi relatado um tempo médio de 86 a 115 dias, cerca de três a quatro meses. Filhotes desenvolveram em torno de 2 meses, e adultos precisaram de vários meses. A quantidade de exercício faz diferença: o desenvolvimento foi proporcional a ela.
Gatos também podem desenvolver o andar medular?
Sim. Em um trabalho, um de cinco gatos com trauma na coluna desenvolveu o caminhar espinhal. A reabilitação é adaptada, por exemplo com uma barra de apoio para as patas da frente.
Meu cachorro vai precisar de fralda para sempre?
Em geral, sim. Mesmo caminhando, o animal com andar medular continua sem controle de xixi e cocô, e os cuidados com bexiga, intestino e pele passam a ser permanentes.
Todo cão paraplégico pode fazer andar medular?
Não. Depende de a lesão estar na região toracolombar, no meio das costas. Lesões da cauda equina, no final da coluna, não desenvolvem andar medular. Cães mais jovens e mais leves têm maior probabilidade, e a indicação é para casos selecionados.
Descubra se o seu companheiro é candidato ao andar medular
Cada lesão tem uma história, e só uma avaliação completa mostra qual é o próximo passo possível para o seu cão ou gato. Encontre a unidade Mundo à Parte mais perto de você e agende a avaliação.
Ou veja a lista de unidades por estado e cidade.