Maine Coon: displasia do quadril e como a fisiatria ajuda

Gato Maine Coon em sala de reabilitação veterinária

O Maine Coon é uma raça de gato doméstico de pelagem semilonga, originária do estado do Maine, no nordeste dos Estados Unidos, conhecida pelo porte avantajado e pelo temperamento sociável. O Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais aponta o Maine Coon como a raça de gato mais afetada pela displasia coxofemoral, com 18 a 21% de acometimento, e registra que ele é aproximadamente 12 vezes mais propenso a desenvolver displasia fiseal da cabeça femoral do que a população geral de gatos.

Saber disso não é motivo para alarme. É o que permite ao tutor notar os sinais cedo, num animal que costuma demonstrar pouco a dor, e buscar o cuidado certo. A seguir, você vê quem é o Maine Coon, quais problemas merecem atenção na raça e como o veterinário fisiatra atua na reabilitação.

O que é o Maine Coon e de onde vem a raça?

O Maine Coon é uma das raças de gato mais antigas da América do Norte. Surgiu no estado do Maine, nos Estados Unidos, onde se adaptou a invernos rigorosos. Essa história explica o visual da raça:

  • Pelagem semilonga e densa, mais farta no peito e na barriga;
  • Cauda longa e peluda, que o gato usa para se aquecer quando se enrola;
  • Orelhas grandes, muitas vezes com tufos de pelo nas pontas;
  • Patas largas, com pelos entre os dedos.

É uma raça de porte grande entre os gatos domésticos e amadurece devagar. Por isso ganhou o apelido de “gigante gentil”.

Como é o temperamento do Maine Coon?

O Maine Coon é conhecido por ser dócil, curioso e muito ligado à família. Gosta de acompanhar a rotina da casa e costuma se dar bem com crianças e com outros animais.

  • Sociável: prefere estar perto das pessoas, mesmo sem ficar no colo o tempo todo;
  • Brincalhão: mantém o gosto por brincadeiras de caça na vida adulta;
  • Comunicativo: é famoso pelos trinados e miados suaves;
  • Inteligente: aprende rotinas e responde bem a brinquedos interativos.

Quais cuidados básicos o Maine Coon precisa no dia a dia?

  • Escovação frequente da pelagem, para evitar nós, principalmente no peito, na barriga e atrás das pernas;
  • Arranhadores firmes e de bom tamanho, que aguentem um gato grande;
  • Caixa de areia ampla, proporcional ao porte do gato;
  • Brincadeiras diárias e enriquecimento ambiental, para gastar energia e estimular o instinto de caça;
  • Água fresca sempre disponível e alimentação orientada pelo médico-veterinário;
  • Consultas veterinárias regulares, para acompanhar o gato em todas as fases da vida.

Quais são as doenças mais comuns no Maine Coon e como a reabilitação ajuda?

No sistema locomotor, o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais destaca duas condições do quadril que envolvem diretamente o Maine Coon: a displasia coxofemoral felina e a displasia fiseal da cabeça femoral. Nas duas, a reabilitação conduzida por um veterinário fisiatra tem papel no controle da dor, no ganho de massa muscular e na recuperação da função, seja no tratamento conservador, seja no pós-operatório.

Displasia coxofemoral felina

A displasia coxofemoral é uma alteração no desenvolvimento do quadril. No gato, ela está associada ao acetábulo raso: a “cavidade” da bacia onde se encaixa a cabeça do fêmur é mais rasa do que deveria. Com o tempo, isso leva à doença articular degenerativa (DAD), o desgaste da articulação.

  • A herança genética não foi documentada especificamente em gatos, mas há relatos de vários filhotes displásicos na mesma ninhada, e a genética provavelmente tem papel na doença;
  • Dois estudos relataram mais casos em fêmeas do que em machos;
  • A doença é subdiagnosticada, porque é difícil para tutores e veterinários perceberem e avaliarem a claudicação (o mancar) em gatos.
GrupoDAD secundária à displasia coxofemoral
Gatos domésticos em geral6,6 a 32%
Gatos de raça pura12,3%
Gatos sem raça definida5,8%
Maine Coon (raça mais afetada)18 a 21%

Depois do Maine Coon, as raças mais afetadas são o Persa e o Himalaia.

Displasia fiseal da cabeça femoral

A displasia fiseal da cabeça femoral, também chamada de fratura fisária capital espontânea, é o deslizamento progressivo da cabeça do fêmur em relação ao colo do fêmur, na linha de crescimento do osso. Pode acontecer em um ou nos dois lados e ocorre sem histórico de trauma importante.

  • É relatada principalmente em Siamês, Maine Coon, Gato Doméstico de Pelo Longo, Gato Britânico e Gato Birmanês;
  • O Maine Coon é aproximadamente 12 vezes mais propenso a desenvolvê-la do que a população geral de gatos;
  • Os mais afetados são machos adultos e com excesso de peso;
  • No Maine Coon, estudos apontam como fatores importantes o sexo masculino, a castração precoce (antes da puberdade), o atraso no fechamento das linhas de crescimento e a massa corporal elevada, característica da raça.
Displasia coxofemoralDisplasia fiseal da cabeça femoral
O que aconteceQuadril com acetábulo raso, que evolui para desgaste articularA cabeça do fêmur desliza em relação ao colo, na linha de crescimento
Dado no Maine CoonRaça mais afetada: 18 a 21%Aproximadamente 12 vezes mais propenso que a população geral de gatos
Tratamento indicado na fonteManejo clínico, ambiental e dietético; cirurgia nos casos que não respondemCirúrgico
Papel da reabilitaçãoTratamento conservador e pós-operatórioPós-operatório

Existe relação com a luxação de patela?

Existe. O Tratado registra uma associação entre luxação medial de patela (o deslocamento da “rótula” do joelho) e displasia coxofemoral em gatos. Os gatos são três vezes mais propensos a ter as duas condições juntas do que a ter apenas uma delas. A hipótese é que a patela fora do lugar altere as forças que chegam ao quadril.

Como saber se o Maine Coon está com dor no quadril?

Avaliar a dor em gatos é difícil. Eles reagem menos a estímulos dolorosos e à manipulação do que os cães, e a claudicação costuma ser nos dois lados, o que dificulta perceber. Por isso, muitas vezes o quadro só aparece quando o desgaste já está avançado. Preste atenção às mudanças de comportamento e de hábitos.

Sinais ligados ao quadril:

  • Relutância em pular ou dificuldade para subir em móveis e lugares altos;
  • Dificuldade ou recusa em subir escadas;
  • Mancar das patas traseiras, que piora com o exercício;
  • Andar agachado, com passos curtos e as pernas traseiras rígidas;
  • Relutância em se agachar para fazer as fezes;
  • Vocalização e mais tempo parado, inativo;
  • Uso diferente da cauda para jogar o peso para o lado que dói menos.

Sinais de dor articular no dia a dia:

  • Perda de peso, falta de apetite e apatia;
  • Xixi e cocô fora do lugar ou mudanças no uso da caixa de areia;
  • Menos cuidado com a própria higiene e alterações na pelagem;
  • Mudança no jeito de arranhar objetos;
  • Agressividade ou mudança na interação com pessoas da casa e visitas, para mais ou para menos.

Um detalhe importante: no gato, a intensidade dos sinais nem sempre corresponde ao que aparece na radiografia. Só a avaliação veterinária, com exame físico e exames de imagem, define o diagnóstico.

A displasia no Maine Coon é grave? Qual é o prognóstico?

Depende da condição, do estágio e da resposta ao tratamento. O que a fonte mostra:

  • Displasia coxofemoral: nos gatos displásicos, as alterações degenerativas do quadril parecem surgir mais tarde e com menos intensidade do que nos cães. A claudicação pode ir de discreta até grave, com incapacidade de andar sobre as patas traseiras. A cirurgia (retirada da cabeça e do colo do fêmur ou prótese total de quadril) é indicada nos casos que não respondem ao manejo clínico, ambiental e dietético, geralmente no estágio final da doença;
  • Displasia fiseal: o tratamento indicado é cirúrgico. A retirada da cabeça e do colo do fêmur é o procedimento mais realizado e mostra resultados satisfatórios no pós-operatório. A fixação com fios metálicos também foi relatada, com bom prognóstico, e a prótese total de quadril é descrita como alternativa, com bons resultados.

Depois da retirada da cabeça e do colo do fêmur, o sucesso depende dos músculos em volta do quadril, que passam a sustentar a nova articulação. Por isso, muitas vezes é necessária uma reabilitação pós-operatória intensa. O paciente volta às atividades normais da rotina, mas a marcha e a postura não ficam iguais às de antes da cirurgia.

Quais cuidados em casa ajudam o gato com displasia?

A dor da doença articular muda o comportamento do gato. Ajustar a casa e a rotina melhora o bem-estar físico e psicológico dele.

  • Peso ideal: manter o gato no escore de condição corporal ideal é recomendado, porque peso e porte têm forte relação com o desgaste da articulação. Cerca de 14% dos gatos idosos com DAD são obesos;
  • Dieta rica em ômega-3: dietas ricas em ácidos graxos ômega-3 são recomendadas para gatos com DAD. Um estudo mostrou aumento no nível de atividade de gatos alimentados com essa dieta em comparação a uma dieta controle, com base na avaliação dos tutores e em monitores de atividade presos à coleira. A dieta deve ser definida com o médico-veterinário;
  • Acesso fácil ao alto: lugares altos são importantes para o gato, mas o displásico reluta em pular. Organize os móveis para facilitar a subida em camas, sofás e janelas;
  • Tudo à mão: comida, água e caixa de areia devem ser o mais fáceis de acessar possível.

Outros suplementos para as articulações ainda não têm evidências científicas que comprovem benefício em gatos displásicos, segundo a fonte. Converse com o veterinário antes de usar qualquer produto.

Como a fisiatria veterinária ajuda o Maine Coon com displasia?

O primeiro passo é o diagnóstico exato e o estadiamento da doença. A escolha entre tratamento conservador ou cirúrgico cabe à equipe que acompanha o gato. A reabilitação entra nos dois caminhos.

No tratamento conservador, que pode ser feito em cães e gatos, independentemente do porte e do grau da lesão, o veterinário fisiatra trabalha para:

  • Reduzir a dor e a inflamação da articulação;
  • Melhorar a composição do líquido da articulação, o que diminui a pressão na cápsula e ajuda no alívio da dor;
  • Aumentar a massa muscular que estabiliza o quadril;
  • Tratar as contraturas e os pontos de tensão muscular que favorecem a dor crônica.

Entre os recursos descritos no Tratado estão os campos eletromagnéticos pulsados, que ajudam a controlar a evolução do desgaste da cartilagem; a fotobiomodulação (laserterapia), que contribui para preservar a articulação e, em casos crônicos, para reduzir a sensibilização à dor; e o ultrassom terapêutico, que alivia a dor e melhora a mobilidade. Com a dor sob controle, entram exercícios com intensidade e desafio aumentados aos poucos.

O corpo do gato também compensa. Com dor no quadril, o animal passa o peso para as patas da frente e muda a postura da coluna. Com o tempo, isso sobrecarrega outras articulações e músculos, e o plano de reabilitação trata essas compensações.

No pós-operatório, o foco inicial é analgesia, controle da inflamação e cicatrização. Depois vêm a mobilização, os exercícios e o fortalecimento muscular, que são decisivos para a nova articulação funcionar bem após a retirada da cabeça e do colo do fêmur.

A melhora no tratamento conservador nem sempre é fácil de enxergar. Por isso, a evolução é medida com exame físico, goniometria (medida do ângulo das articulações) e perimetria (medida da circunferência da coxa, que indica massa muscular), junto com o que o tutor observa em casa: um gato mais disposto e ativo, comendo melhor e voltando a subir e descer dos móveis.

O tratamento não promete cura. O objetivo é oferecer mais conforto, reduzir a dor e devolver ao gato a funcionalidade nas atividades do dia a dia. Veja também o nosso guia sobre displasia coxofemoral em cães, com uma seção dedicada aos gatos.

Por que confiar nestas informações?

Este conteúdo se baseia no Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, dos autores Jennifer Hummel, veterinária fisiatra e Fundadora da Mundo à Parte, e Gustavo Vicente, médico-veterinário especializado em fisioterapia e ortopedia e também Fundador da Mundo à Parte. As informações sobre as doenças vêm do capítulo “Afecções da Articulação Coxofemoral”, de Bruno Watanabe Minto, Fernando Yoiti Kitamura Kawamoto, Guilherme Galhardo Franco e Alefe Luiz Caliani Carrera. As orientações de reabilitação vêm do capítulo “Reabilitação da Coxofemoral”, de Gustavo Vicente e Jennifer Hummel. A Mundo à Parte é uma rede de fisioterapia veterinária com mais de 100 unidades em 9 países, onde cada atendimento é conduzido por um veterinário fisiatra.

Onde levar o Maine Coon para uma avaliação de reabilitação?

Se o seu Maine Coon parou de pular, evita a caixa de areia ou anda diferente com as patas de trás, vale uma avaliação. O veterinário fisiatra examina o quadril, conversa com a equipe que acompanha o gato e monta um plano de reabilitação para a fase em que ele está.

Encontre a unidade Mundo à Parte mais próxima e agende a avaliação do seu Maine Coon com um veterinário fisiatra.

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Perguntas frequentes

Todo Maine Coon vai ter displasia coxofemoral?

Não. Segundo o Tratado de Fisioterapia e Fisiatria de Pequenos Animais, 18 a 21% dos gatos Maine Coon são afetados, o que faz dela a raça mais acometida. Por isso vale observar os sinais e manter o acompanhamento veterinário.

Displasia coxofemoral e displasia fiseal são a mesma coisa?

Não. Na displasia coxofemoral, o quadril tem um acetábulo raso e evolui para desgaste da articulação. Na displasia fiseal, a cabeça do fêmur desliza em relação ao colo, na linha de crescimento do osso, sem trauma importante. O Maine Coon é aproximadamente 12 vezes mais propenso à displasia fiseal do que a população geral de gatos.

Quais sinais indicam dor no quadril do gato?

Relutância em pular, dificuldade para subir escadas e móveis, mancar das patas traseiras que piora com exercício, andar agachado, relutância em se agachar para fazer as fezes, vocalização e inatividade. Mudanças no uso da caixa de areia, na higiene e no comportamento também podem indicar dor articular.

Gato com displasia pode fazer fisioterapia?

Pode. O tratamento conservador da displasia coxofemoral pode ser feito em cães e gatos, independentemente do porte e do grau da lesão. A reabilitação também é parte importante do pós-operatório, principalmente depois da retirada da cabeça e do colo do fêmur.

A reabilitação cura a displasia do Maine Coon?

Não há promessa de cura. O objetivo é oferecer mais conforto, reduzir a dor e devolver ao gato a funcionalidade nas atividades do dia a dia, em conjunto com o tratamento definido pela equipe veterinária.

O que posso mudar em casa para ajudar meu gato?

Manter o peso ideal, conversar com o veterinário sobre uma dieta rica em ômega-3, organizar os móveis para facilitar o acesso a camas, sofás e janelas e deixar comida, água e caixa de areia fáceis de alcançar.